Um grande ano ou só um anão?

Um presidente que despreza a ciência a substituiu pela fantasia da feitiçaria

FLÁVIO TAVARES *, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 03h00

A cada fim ou começo de ano, repetimos uma frase sobre os 12 meses anteriores: “Tudo passou voando!”. E nos surpreendemos pela rapidez da própria vida. Talvez seja a mais genuína e inata sensação de que viver é algo passageiro e nosso único e geral destino é ter um fim, tal qual flor cortada do galho. Ou como aquelas que murcham por si, na própria planta.

O passado 2019, porém, acumulou tanta coisa - desde coisinhas medíocres até fatos marcantes - que talvez explique a velocidade que nos fez chegar ao fim de ano quando parecia, até, que tudo apenas começava. Já no primeiro dia, a posse do novo presidente da República mostrou que iniciaríamos um período de correrias para não sermos atropelados por tudo o que o novo poder prometia instaurar.

Mas os atropelamentos ocorreram. E quando Bolsonaro anuncia algo, até crescem e se multiplicam como se fossem acrobacias de um circo a que assistimos sentados, incrédulos diante do inútil e extravagante exibicionismo dos trapezistas. A reforma da Previdência, iniciativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, e a legislação sobre segurança pública do ministro da Justiça, Sergio Moro, mostraram o lado ágil do governo, em contraste com a sonolenta modorra ou inação das demais áreas, a começar pelo Meio Ambiente e pela Educação.

Esses dois setores vitais, que constituem o núcleo dinâmico do futuro, foram transformados pelo governo em fontes de incompreensão e balbúrdia interna desde que Bolsonaro inventou que os dados do Instituto de Estudos Espaciais sobre a degradação da Amazônia eram “falsos” ou “incorretos”. Pela primeira vez na História um presidente desprezava a ciência e a substituía pela fantasia da feitiçaria e, assim, ele próprio se transformava em feiticeiro.

O desprezo pela proteção ambiental formalizou-se pela ausência de Bolsonaro na reunião de cúpula sobre o clima, em Madri, e se evidenciou na tardança de 41 dias para pôr em prática o “plano de contingência” e dar solução às manchas de óleo nas praias do Nordeste. Os incêndios na Amazônia foram tratados como “práticas naturais” em áreas de cultivos, até mesmo em florestas até então preservadas. O êxtase acusatório do presidente beirou o delírio ridículo ao acusar ONGs de preservação ambiental de “serem pagas” pelo ator Leonardo DiCaprio para incendiar a floresta…

Essa invencionice não é apenas uma ridicularia a mais na lista que o povo chama de “coisas sem pés nem cabeça”. Ao ser pronunciada com seriedade pelo presidente da República, transforma-se num perigoso monstro que inventa subterfúgios banais para manter seu terreiro, sem nenhum compromisso com a verdade.

Já tivemos precedentes nos ares palacianos do Planalto. Lula da Silva foi exímio na pompa das banalidades dos lugares-comuns. Dilma abandonava as frases pelo meio e não sabíamos se festejava ou se queixava do que ia dizer. Temer especializou-se em “descobrir” o já conhecido e rebuscá-lo com a empáfia de “novo”. Nunca, no entanto, como agora com Bolsonaro, nenhum presidente se havia atrevido a inventar futilidades tão exóticas para explicar a inação e o desinteresse do próprio governo.

Em contraste com essa inércia, os olhos e as ações do governo se concentraram na Abin para vigiar o Sínodo da Amazônia, no qual, no Vaticano, bispos de nove diferentes países analisaram as carências da região, a começar pela destruição do meio ambiente. Num infantilismo ciumento e caolho, essa reunião interna da Igreja Católica foi apontada pelo governo como “intromissão” em assunto próprio do Brasil, desconhecendo que compartilhamos a Amazônia com outros oito países.

O sínodo era o ponto de união entre os nove, mas foi visto por nosso governo como algo oposto e estranho.

Os dois temas fundamentais do século 21, a crise climática e a educação, foram tratadas em 2019 como algo subalterno. Os Ministérios do Meio Ambiente e da Educação pareceram disputar uma carreira num enlouquecido hipódromo em que se premiasse o mais omisso, disparatado e ávido por tolices. Na Educação a balbúrdia teve eco de dor e Bolsonaro viu-se obrigado a substituir o colombiano ministro por alguém nascido aqui, mas que continuou desconhecendo nossas raízes e a própria cultura que forma o Brasil.

Ao fim do ano, um insólito presente de Natal desmontou a autonomia universitária, fundamental para a livre pesquisa. A decisão do presidente (assoprada pelo ministro) que o desobriga de nomear como reitor o nome mais votado pela comunidade acadêmica é o primeiro passo para submeter as universidades à burocrática e míope visão de governantes distanciados do sentido profundo da educação e da pesquisa universitárias. Esse perigoso ato concreto supera até o arrogante disparate de Bolsonaro ao tachar o educador Paulo Freire de “energúmeno”, um possuído pelo demônio.

O ano de 2019 resumiu-se a um tempo de desconstrução. A abolição do radar nas estradas iniciou a insensatez de pôr abaixo o existente sem nada criar para preencher o vazio. O combate à corrupção, promessa que arrebanhou votos em 2018, cedeu lugar, em 2019, às denúncias envolvendo num emaranhado de fraudes o filho número 1 e escudeiro-mor do presidente.

A prole presidencial, que se comporta como família monárquica destinada ao trono, acabou levando Jair Bolsonaro a optar por um partido dele próprio, em que seja o único mandão no dadivoso Fundo Partidário. Antes passou por oito diferentes partidos, recorde jamais alcançado por ninguém no Brasil e no mundo.

Por tudo isso (e por outros disparates mais, à escolha do leitor) é difícil sintetizar o 2019 que passou. Terá sido um grande ano ou apenas um anão?

* JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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