Um grande ano ou só um anão?

O perigoso é nos habituarmos a essa repetição constante de insensatez

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2021 | 03h00

A covid-19 é brutal em si, mas não foi só a pandemia que fez de 2020 um “ano terrível”, em que a humanidade se transformou em fantasma, vagando com medo e sem rumo na escuridão. Os governantes do Brasil deram, também, intensa contribuição ao horror.

A sucessão quase diária de disparates governamentais nos transforma num país sem rumo. Os absurdos se amontoam. O que nos escandalizou ontem é superado pelo horror de hoje, a ser substituído pelo absurdo de amanhã.

O perigoso é nos habituarmos a essa repetição constante de insensatez. Corremos o risco de tomar a estupidez como “normalidade”, levando o caos para o lar ou para a consciência e alterando para pior nossa compreensão do mundo e da vida.

Em tempos de democracia, e até nos anos brutais da ditadura implantada em 1964, os governos (bem ou mal) buscaram unir o País em torno de problemas imediatos. Agora, em plena pandemia, Bolsonaro desmobiliza a sociedade, como se não visse a ameaça. Dizer que a “gripezinha” está “no finalzinho” em meio às mortes em aumento, ou que “não há pressa” na vacina, mostra um desvio de atenção próximo de um perigoso desvio de personalidade.

Em meados de dezembro, a foto de primeira página deste jornal mostrou o exibicionismo megalômano que leva a indagar sobre quem é, de fato, o presidente da República na profundeza do próprio ser. Numa redoma de vidro, ali apareciam o terno e o vestido usados pelo casal presidencial na posse, em janeiro de 2019, como se fossem “relíquias sagradas”. Na foto, ele e ela, em pose, como objetos de adoração.

O exibicionismo esconde raízes profundas, que, no caso, faz crer que o presidente só vê a si próprio, numa sucessão de espelhos, sem jamais enxergar a Nação.

Ou quando olha em torno de si o presidente vê apenas o que já “cozinhou” na mente. Inventa inimigos, alhures ou algures. Ou leva o País ao abismo perigoso de instigar as forças policiais contra a imprensa, como fez na formatura da Polícia Militar do Rio de Janeiro no final de 2020. Jamais um chefe de governo convocou soldados da segurança pública a duvidarem da informação concreta da imprensa, dando-lhes assim (mesmo indiretamente) “carta branca” para o crime como se isso combatesse o crime.

O ano novo é sempre tempo de júbilo e bons augúrios, mas a alegria confiante e verdadeira surge apenas da realidade. Nosso amanhã brota do que fomos ontem, nunca da fantasia ilusória de um sonho irrealizado. E de fantasias ou ilusões (ou mentiras) vivemos há tanto tempo que basta mencionar os disparates recentes para compor uma seleção do horror. Primeiro o mensalão depois a Lava Jato deram a dimensão da fraude de Lula da Silva e seus comparsas. Logo Temer ampliou a caverna de Ali Babá e surgiu Bolsonaro com as mãos imitando um revólver ou um fuzil, mas com a mente vazia.

Neste 1.º de janeiro ele completa dois anos de governo e sua única proposta é insistir na tal “excludente de ilicitude”, nome pomposo que dá à polícia licença para matar num país onde não há pena de morte.

O presidente age como se tivesse intimidade com a morte. Dias atrás voltou a elogiar o massacre do Carandiru, em que 111 detentos foram mortos, há anos. Logo, como presente de Natal, liberou a importação de armas, enquanto medicamentos essenciais vindos do estrangeiro continuam com altas taxas de importação.

Facilita-se o que leva à morte, sem maior preocupação com a vida.

Nada, porém, é comparável ao desdém com que o governo federal trata a pandemia e a devastação do meio ambiente. A ciência, o secretário-geral da ONU e o papa advertem sobre o futuro desastre das mudanças climáticas, algo ainda mais devastador do que a covid-19. Os “rios aéreos” da nossa Amazônia ajudariam a mitigar a crise, mas a devastação da floresta cresce a cada dia.

Os incêndios no Pantanal mato-grossense foram tratados burocraticamente.

Sobre a pandemia em si, tudo é ainda mais brutal, pois o horror já se instalou e mata sob o olhar de desdém do presidente da República, que, de forma diferente, repete aquele “todos vão morrer um dia”, dito à porta do palácio, meses atrás, como bordão festivo.

Até o Supremo Tribunal se viu acima da Nação, ao pedir que se reservassem 7 mil doses da vacina para seus membros e familiares.

Se os governantes são impermeáveis ante o futuro, no setor privado alguns entenderam o perigo. Os três maiores bancos privados, Itaú, Bradesco e Santander, já advertiram sobre a possível retirada de investimentos estrangeiros se persistir a devastação ambiental. A Ambev construirá 48 usinas solares para abastecer seus centros de distribuição, mesmo após Bolsonaro retirar incentivos à energia solar e à eólica. A Votorantim promete “reduzir a zero”, até 2050, a emissão de gases de efeito estufa nos poluentes processos de mineração e fabricação de cimento.

Os 12 meses de 2020 não definiram um grande ano, mas apenas um ano anão.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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