Um guia brasileiro, superlativo e inconteste!

Enorme contribuição para o Homo sapiens na tentativa de evitar seu retrocesso e extermínio

Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 03h00

A existência de um texto reivindicando ao Ministério da Saúde “revisão urgente” do Guia Alimentar para a População Brasileira já seria preocupante, mas a solicitação da retirada de recomendações contrárias a alimentos industrializados é assustadora. Flerta com o inconcebível a fonte requerente ter o endereço de uma das pastas de melhor desempenho do governo, guardiã do que levamos à nossa mesa e com elogiáveis números na nossa balança comercial, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Entre os argumentos do reclamante está o infundado questionamento dos estudos que apontam os desastres orgânicos entregues por esses gêneros alimentícios substancialmente modificados em sua elaboração. A alegação mais improcedente sugeria ser perigoso consumir exclusivamente alimentos in natura ou minimamente processados.

As bases da demanda foram preparadas pela Associação Brasileira de Indústria de Alimentos, com propositada contraversão de estudo publicado no The British Medical Journal em julho. Pesquisadores das Universidades de Oxford e Harvard são parte dos colaboradores do artigo, que aborda as implicações da adoção de guias alimentares nacionais na saúde e no meio ambiente. A insatisfação dos autores com a interpretação deturpada de sua publicação pode ser conferida na edição de 22 de setembro deste jornal.

Artigos científicos são públicos, com endereço de acesso e chancelados pela comunidade científica mundial; quando se questiona a ciência, submete-se à ignorância e, embora timidamente, nossa espécie busca a preservação, será impossível subordinada a crenças ou, pior ainda, a interesses financeiros.

Existe consenso entre antropólogos de que o aumento progressivo do volume cerebral de nossos ancestrais e o extraordinário desenvolvimento do pensamento e raciocínio foram resultantes de mudanças em seus modelos alimentares. O consumo de carnes, em seu aporte proteico, e sua cocção, após a descoberta do fogo, estabelecem as linhas divisórias mais significativas nesse movimento de exponencial avanço evolutivo.

Em outra observação, agora alusiva à expansão populacional, os dois processos transformadores mais importantes foram o domínio de técnicas de agropecuária e a revolução industrial. Inicialmente limitado pela sazonalidade e depois amplificado pela industrialização, o fornecimento de alimentos permitiu nosso aumento numérico. 

Então, após domar os alimentos em suas origens, nós os modificamos para o consumo, fórmula que não contestamos até que percebêssemos a dimensão do revés que encontraríamos. As suspeitas principiadas há algumas décadas se transformaram em certezas científicas e uma avalanche de alertas envolvendo aditivos químicos em comestíveis denunciam que estamos nos destruindo pelo que modificamos.

Inúmeras doenças têm em seu lastro de prevalência forte patrocínio de elementos sintéticos agregados pela indústria alimentícia. São produtos modificados e modificantes, que portam substâncias capazes de transtornar a saúde desde a vida intrauterina. Governos de todo o mundo buscam proteger sua gente, ao tempo que procuram o meio-termo entre a perda arrecadatória proveniente do comércio desses artigos e o ganho pela diminuição dos gastos com a saúde.

Implantado em 2006 na capital de nossos 26 Estados e no Distrito Federal, a Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) monitora a prevalência de diabetes, câncer, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares nas vinculações com alimentação não saudável, tabagismo, inatividade física e uso nocivo de bebidas alcoólicas. 

No que tange ao comportamento alimentar na associação com doenças crônicas, técnicos do Ministério da Saúde, em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, criaram em 2014 um guia alimentar, elogiado internacionalmente e utilizado como referência por outros países na execução de projetos semelhantes. Com balizamento estritamente científico, sem deduções tendenciosas, ideologias ou vestes religiosas, as diretrizes do distinto guia brasileiro são muito claras. A virtuosa cartilha estimula consumir alimentos in natura ou minimamente processados, pede cautela com óleo, sal e açúcar, adverte para os itens in natura que são processados com adição de óleos, açúcar, sal ou outras substâncias para aumentar sua durabilidade e condena os alimentos ultraprocessados. 

Uma monumental contribuição brasileira para a espécie Homo sapiens de todas as nacionalidades em seu processo de releitura, na tentativa de evitar seu retrocesso e extermínio.

O equívoco do Mapa parece ter sido circunstancial e transitório, pois há pouco foi ordenada a retirada da inaceitável solicitação. Quem sabe um arroubo, que se de fato corrigido no que pretendia não macula sua ótima trajetória. E talvez tenha servido como plataforma para demonstrarmos que admiramos tudo o que seja bem feito, por governos de qualquer tempo.

DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

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