Um pacto pela ciência

USP, Unesp e Unicamp unidas em torno de um projeto de governança com visão de futuro

Jacques Marcovitch, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 03h00

No curso da pandemia de covid-19 tornaram-se visíveis os benefícios sociais proporcionados pelas três universidades estaduais de São Paulo, representadas por seus cientistas, laboratórios e hospitais de grande porte. Esse sistema de ensino, pesquisa e extensão de serviços à comunidade, formado pela USP, pela Unicamp e pela Unesp, responde por 34% da produção científica de todo o País, com estudos de alto impacto. E quando falamos de impacto elevado nos referimos, sobretudo, a conhecimentos geradores de proveito para a sociedade.

Mesmo com o significativo desempenho já mencionado, as três instituições empenham-se, conjuntamente, no Projeto Métricas, com apoio da Fapesp, no objetivo de aprimorar o desempenho acadêmico e fortalecer mais ainda sua presença nas comparações internacionais. Esse projeto é fruto de inédita parceria entre a USP, a Unicamp e a Unesp e pode ser visto como um pacto pela ciência, no qual será indispensável a participação do Executivo, do Legislativo e da sociedade civil. 

O pretendido uso de um suposto “superávit financeiro” das universidades para realocação, pelo Estado, de recursos para pagamento de professores e servidores aposentados não se apoia em fatos. As universidades estaduais já pagam esses proventos com recursos de sua cota-parte do ICMS. O PL 529, na verdade, dificulta a pesquisa científica e demais atividades-fim das instituições representadas pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais (Cruesp).

Este artigo foca três pontos implícitos na questão acima comentada: o desempenho acadêmico, a ascensão das instituições nas comparações globais e formas práticas de alcançar as metas estabelecidas.

A excelência não basta. É preciso aprimorá-la continuamente e difundir conteúdos que destaquem o desempenho acadêmico e sua reputação. Na área de graduação, a USP, a Unicamp e a Unesp acabam de apresentar uma robusta prova de apoio ao ambiente de negócios. Com base na Relação Anual de Informações Salariais (Rais) do Ministério da Economia, um estudo recente da FEA-USP, coordenado pelo professor Carlos Azzoni, demonstra que os profissionais formados pelas três universidades estaduais paulistas foram, em média, 62% mais produtivos, em 2018, do que os egressos de outras instituições. A produtividade é fator central no desenvolvimento. Um exemplo eloquente de retorno do investimento feito pela sociedade no ensino superior público.

O Projeto Métricas dá prioridade às comparações internacionais. Para ascender mais ainda nessas comparações devemos valorizar os artigos mais citados pela sua contribuição ao avanço do conhecimento, formar polos de competência liderados por pesquisadores de primeira linha, tornar engenharias e ciência da computação tão fortes quanto a matemática, além de manter ou melhorar posições em ciências agrárias e farmacologia, por exemplo. 

Para garantir sua inclusão entre as melhores nas comparações globais, as nossas instituições devem identificar seus cientistas mais próximos da lista dos mais citados e apoiá-los para prosseguirem na sua trajetória. Parcerias globais em áreas que atraiam recursos merecem atenção. Facilitam o acesso a grandes fundos de financiamento. Mesmo eventuais diásporas de cérebros podem criar oportunidade: as universidades devem rastrear a trajetória internacional de seus egressos da pós-graduação. Ganham reputação como formadoras de bons cientistas e alargam espaços de colaboração externa. 

As três universidades estaduais paulistas mostram-se unidas em torno de um projeto de governança com a mesma visão de futuro, garantia de perenidade em qualquer organização. Ir para a frente, abrir fronteiras, ganhar o mundo. No exercício de sua missão e do culto dos seus valores, cumprem agora um itinerário comum. Internacionalizam-se, avançam para além de seus câmpus, de seu país e do continente em que atuam.

A primeira contribuição ao pacto pela ciência aqui desenhado em seus traços básicos certamente virá do apoio, talvez próximo, dos Poderes Executivo e Legislativo: o PL 529, como está redigido, praticamente anula a autonomia universitária da universidade pública de São Paulo.

As evidências demonstram que o Cruesp merece o bônus do reconhecimento, e não apenas o ônus de explicar incansavelmente essa demanda essencial para a vitalidade das três instituições que representa. Os reitores Marcelo Knobel, Sandro Valentini e Vahan Agopyan são cidadãos prestantes e idôneos que se destacam pela devoção ao bem público e pelo obstinado cumprimento de suas responsabilidades. Outros cidadãos e cidadãs de proeminência na sociedade civil são chamados a este pacto, a começar pelos dirigentes dos movimentos Todos pela Educação e Todos pela Saúde. 

Esse compromisso tem como horizonte o ano de 2022, quando o Brasil celebrará o bicentenário da Independência, proclamada em São Paulo, um Estado de respeito.

PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE (FEA-USP), FOI REITOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

 

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