Um país ciclotímico chamado Brasil

Este é um dos momentos mais depressivos vividos em várias décadas

Roberto Teixeira da Costa, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 03h00

O dicionário Aurélio define ciclotimia como “psicose maníaco-depressiva com distúrbio mental circular ou cíclico, em geral de manifestações discretas”. É comum, na análise de comportamento do povo brasileiro, sermos diagnosticados como ciclotímicos. Passamos da euforia à depressão com incrível rapidez. Em certos momentos acreditamos viver num país privilegiado, com incríveis recursos e dotado de precondições necessárias para aspirar a ser uma das grandes nações do planeta. De repente, damos um giro de 180 graus e nos abate um tremendo derrotismo. Passamos a ser uma nação de aproveitadores, com uma elite incompetente, trabalhadores preguiçosos e governantes ineptos, que não conseguem manter uma moeda confiável e déficits fiscais que não nos levem à bancarrota. A classe política está muito longe de ter o apoio da sociedade. E esquecemos que nós a elegemos.

Certamente, este é dos momentos mais depressivos vividos em várias décadas.

Prefiro ver nosso país como um seriado, e não tirando fotos de determinados períodos, instantâneos que podem apresentar uma visão deturpada de uma situação transitória. Analiso esse seriado com a visão de um profissional de seis décadas sempre atento ao comportamento da nossa sociedade e a suas mudanças de humor.

Nesse seriado tivemos ciclos com vários diretores, elenco com diferentes desempenhos e todo tipo de cenário. Os atores coadjuvantes em alguns episódios buscaram participações importantes e não previstas no script, criando sérios problemas para o diretor do episódio, interferindo no roteiro, isso sem falar nas intervenções da censura, que julgou certas cenas como “impróprias”.

Ao longo desse período tivemos episódios com quatro anos de duração, em que vimos alguns diretores dobrando sua direção, mas com diferentes protagonismos no seu desempenho e no de seus participantes. Alternamos comédias, fantasias (tempos da bossa nova), suspense, até com impedimento do diretor e sua substituição, dramas financeiros (Plano Cruzado) e cenas de horror, como nos episódios mais recentes.

Desde 2019 o atual diretor do seriado tem se mostrado totalmente inabilitado, dirigindo os episódios com incompetência e com atores coadjuvantes que, em raras exceções, são grandes canastrões, totalmente despreparados para sua atuação.

O roteiro proposto pelo diretor ao longo do tempo foi se mostrando fora de sintonia com os objetivos que havia previamente indicado, criando desconforto para grande parte dos que o haviam escolhido. Com esse quadro, houve substancial queda na sua aprovação e muitos até defendem sua substituição imediata. Em geral, a mídia não lhe tem poupado críticas, salientando a incompetência e o absurdo de seu comportamento. No entanto, ignorando o quadro de rejeição, ele busca incansavelmente apoio não apenas para se manter na direção, mas principalmente olhando 2022, quando seu destino será decidido.

Nesse cenário de horror, grande parte dos que o apoiaram foi infectada por uma doença perversa, mas dele não obtiveram a solidariedade esperada para mitigar seu pesar e sofrimento. O diretor prefere circular de moto nos fins de semana ou promover desfiles militares extemporâneos, aglomerando grupo de fanáticos que ainda o apoiam.

No exterior, todos os que acompanham o seriado brasileiro têm indicado grande preocupação, prevendo dificuldades no financiamento dos próximos episódios. Os produtores estão insatisfeitos com seu comportamento e não demonstram disposição de voltar a liberar recursos.

Recentemente, quando o seriado assumiu características imprevisíveis, um ex-diretor, que dirigiu o programa há mais de dez anos, apesar dos percalços que enfrentou anteriormente, devidos a desvios de conduta de seus “amigos” na gestão do seriado, indicou que gostaria de voltar à cena, contando para tal com o apoio dos que o escolheram no passado.

Nesse ambiente, aqueles que estarão envolvidos na escolha do próximo diretor se mostram preocupados com a opção por um nome com ideias mais contemporâneas, que possam considerar para os novos capítulos do seriado. Querem um roteiro que privilegie valores tradicionais que marcaram as melhores fases do seriado e, assim, potencializar o que de melhor tivemos em alguns capítulos. Esse seria o objetivo de superar essa percepção para que o seriado não continue privilegiando cenas de terror, e não se torne um filme de ficção, e sim retornando a ter um roteiro realista, ressaltando nos capítulos futuros o que o País tem de positivo, recuperando dessa forma níveis de audiência, aqui e no exterior.

Certamente essa mudança de roteiro não será repentina, mas pode indicar que as cenas de terror serão coisas do passado quando nos livrarmos da ciclotimia. E que, no futuro, possamos ter maior confiança no seriado, para que seja possível assistir a ele sem sobressaltos, relembrando alguns excelentes episódios do passado, vencendo o momento depressivo e negacionista que vivemos.


ECONOMISTA, É CONSELHEIRO EMÉRITO DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA

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