Um véu de religiosidade para o fascismo

Na virada do ano o pretexto foi o Porta dos Fundos. E no mês que vem?

Eugênio Bucci*, Impresso

16 de janeiro de 2020 | 03h00

Agora o pretexto foi o especial do Porta dos Fundos, a produção humorística chamada A Primeira Tentação de Cristo (em cartaz no Netflix). De pronto as falanges do moralismo rabugento alegaram que o filme afronta as tradições cristãs e ato contínuo desferiram seus ataques. Uma vez mais a intolerância que vem sufocando a vida cultural brasileira mostrou sua face medonha. Sombras cobriram as festas de fim de ano.

O pesadelo começou na véspera de Natal, quando um grupo de vândalos jogou coquetéis Molotov na sede do Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, espalhando labaredas pelo estabelecimento. Em seguida, num vídeo sinistro que circulou nas redes sociais, uns tipos mascarados, falando em nome de um integralismo funesto, assumiram a autoria do atentado. Contra a comédia de ficção, o terrorismo real se impôs.

A polícia rapidamente passou a investigar o crime, mas não conteve a tensão. Não houve trégua natalina. No dia 7 de janeiro, um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou que a atração fosse retirada do cardápio do Netflix. Ou seja, depois da violência física, veio a castração simbólica: censura judicial. A medida só não fez mais estragos porque em 48 horas o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, restabeleceu a normalidade constitucional e derrubou a proibição infundada.

Menos mal, por certo. A censura caiu e a liberdade de expressão foi garantida, assim como o direito de cada um de nós de ter acesso às artes, ao entretenimento, aos bens culturais e à informação. Mas isso não significa que a paz reine sobre este chão. A ira das bombas incendiárias continua à espreita. O obscurantismo dos que querem um Brasil com mais mordaça, menos livros e mais armas de fogo não vai recuar. Vem mais por aí.

Covarde, o obscurantismo pátrio costuma se esconder por trás de desculpas oportunistas. Os terroristas, como os censores, dizem agir para defender a família brasileira e o cristianismo. É mentira: eles defendem apenas a repressão dos costumes, o que nada tem que ver com o Evangelho. Adoram a repressão porque se sentem sexualmente mais seguros num ambiente reprimido e repressor. Refugiados no autoritarismo, tentam se proteger de si mesmos, de seus fantasmas e de suas vergonhas. Sua causa não é teológica ou doutrinária, é meramente anticivilizatória.

Para eles, A Primeira Tentação de Cristo não passa de um pretexto. A gente vai ver o filme e se surpreende: no fundamental, o roteiro não contraria os dogmas centrais do catolicismo ou do protestantismo (e de suas ramificações evangélicas). Embora abuse das diatribes picarescas (e às vezes do mau gosto), o filme não chega às raias da apostasia. Ao contrário, reafirma a fé cristã. Assista e verá.

É verdade que A Primeira Tentação pega pesado na irreverência. Interpretado pelo ator Gregório Duvivier, Jesus aparece como um jovem frágil, com tiques adolescentes, que na festa de aniversário de 30 anos hesita em aceitar o destino que Deus lhe deu. Até Deus, o próprio, entra em cena, encarnado como um tio misterioso (Antonio Tabet) que cochicha lubricidades no ouvido de Maria, mas o maior dos atrevimentos da trupe de comediantes é o namorico homoafetivo entre o filho de Maria e um certo Orlando (Fábio Porchat). Orlando é um sujeito desmunhecado, estridente, espaçoso e enxerido, do tipo que se enturma sem ser convidado. Jesus, em contraste, mais modesto e mais pacato, diz que a missão de salvar a humanidade não combina com o seu “perfil”. Se dependesse dele, levaria uma vida mais recolhida. Dependendo das predileções estéticas do espectador, o efeito cômico até que funciona.

Sim, a galhofa é muita, mas, convenhamos, é venial. Picardias à parte, o roteiro é pio como um folheto de catequese e tem até um happy end, com o bem (divino) prevalecendo sobre o mal (satânico). No clímax da ação dramática, Jesus deixa a piada de lado e, em duelo contra Lúcifer, fala sério para proclamar que Deus “está no meio de nós”. Lúcifer sai derrotado e o protagonista, nessa hora, em vez de gargalhadas, quer despertar emoções místicas na plateia.

Em suma, o filme não incorre na blasfêmia. Ao contrário, é abertamente favorável a Jesus de Nazaré e a seus ensinamentos. O Porta dos Fundos estaria no seu direito se enveredasse pela heresia, mas não quis ir por aí. Preferiu reafirmar a mensagem de Cristo, sem abrir mão da chacota.

Portanto, o que enfureceu os facínoras não foi uma eventual heresia, mas a liberdade alegre, a sátira corrosiva que o Porta dos Fundos lança não contra as Escrituras, mas contra as neuroses atuais. Terroristas e censores têm um apego doentio a essas neuroses, especialmente a quatro fatores que favorecem a tirania: a sexualidade engessada, a imposição de um modelo ultraconservador de família, a obediência cega à autoridade e a disciplina militar convocada para sufocar as relações humanas. Como todos esses fatores são ridicularizados pelo Porta dos Fundos, os facínoras sem fé querem vê-lo ardendo nas chamas do inferno. O que os move não é um sentimento de religiosidade, é apenas fascismo.

A Primeira Tentação de Cristo se vale do cenário do Novo Testamento para caçoar do mundo atual, não do antigo. Zomba das relações conjugais se esboroando sob as aparências, dos papéis sexuais pré-formatados, do modo de vida enclausurado em formas vazias. Os terroristas e os censores, que não têm senso de humor e não sabem o significado da palavra heresia, viram selvagens. O riso livre os transforma em lobisomens. A liberdade os apavora.

Apavorados e brutais, posam de carolas. Imaginam-se mais convincentes do que João, Mateus, Lucas e Marcos. Mais cristãos do que Jesus Cristo. Para eles, o Novo Testamento é o panfleto ideal da ditadura que querem reimplantar no Brasil. Quem ri da fraude trágica que eles encenam a céu aberto não terá perdão jamais.

Na virada do ano, o pretexto foi o Porta dos Fundos. E no mês que vem?

JORNALISTA, É PROFESSORDA ECA-USP

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