Uma faísca para acender a mais importante fogueira

O Dia da Educação é um ótimo momento para refletir sobre sua importância para o País

*ANA MARIA DINIZ, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 03h00

No Dia Mundial da Água, campanhas de engajamento para preservação desse bem tão importante. No Dia do Meio Ambiente, recomendações de cuidados com recursos naturais. No Dia do Trabalho, ações pró-carteira assinada. Todas essas datas, de uma forma ou outra, reúnem milhares de brasileiros em torno de um ideal. O Dia da Educação, não. O 28 de abril, Dia da Educação, é uma data que passa, com raras e boas exceções, despercebida. Esse é o reflexo de como estamos lidando com o mais importante ativo para o crescimento social e econômico de um país. Falta, ainda, uma grande mobilização da sociedade por uma causa com impacto direto em nosso futuro.

O Brasil pode e precisa de mais ações, discussões e engajamento na educação. E isso tem de estar presente no cotidiano: no bate-papo do café da manhã em família, nas rodas de happy hour com os amigos, nas hashtags da internet, sendo falado por pessoas de idades diferentes e com ideias variadas. É evidente que há avanços. Movimentos como o Todos pela Educação são um sopro de esperança que mostram que há um caminho a ser seguido. Mas é preciso fazer muito mais. Para ter uma ideia de como a educação ainda é desvalorizada, no Congresso Nacional as bancadas ruralista e evangélica são, há anos, extremamente fortes e sólidas, suas pautas são debatidas a todo momento. Já a bancada da educação está nascendo só agora, mas com muita energia e vontade de mudar o cenário atual, depois de um trabalho conjunto entre sociedade, terceiro setor e lideranças políticas para que o tema seja tratado com a devida importância que tem.

É importante sempre lembrarmos que a raiz do desenvolvimento de um país está na educação. Os exemplos estão em nosso dia a dia: sabemos que para termos uma saúde decente precisamos de bons médicos, que só há segurança com inteligência policial, só há bom governo com gente sábia no poder. Ou seja, a reflexão sobre a importância da educação já está em nosso inconsciente. Um país que não avança na qualidade do seu ensino não avança como país. Formar profissionais com alto nível de qualificação é um desafio que deve ser cada vez mais estimulado, mas só será aprimorado se trabalharmos bem esse estudante desde a sua formação inicial, que é no qual, em pleno século 21, seguimos concentrando nossos esforços.

No Brasil ainda pouco são discutidas as implicações, por exemplo, de estarmos ano após ano nas últimas posições do Pisa, a avaliação internacional do desempenho de estudantes. Os dados são preocupantes: 60% dos nossos alunos de ensino básico nem sequer conseguem chegar ao fim da prova. Em países que trabalharam os seus planos de desenvolvimento educacional, como a Finlândia e a Colômbia, essa taxa é de 6% e 18%, respectivamente.

A base da formação é outro ponto que carece atenção: 55% das crianças brasileiras de 8 e 9 anos ainda não sabem ler e escrever. É urgente desenvolvermos uma política pública focada na alfabetização na idade certa. Estamos mais que atrasados numa questão cuja solução deveria ser prioridade.

Não tenho receio de dizer que o País tem tudo para avançar 50 pontos em oito anos no Pisa, o que corresponde ao nível atual de nossos vizinhos do Chile, uma nação que se vem destacando por uma atuação responsável desde que assumiu a educação como pauta prioritária no governo. Hoje se sabe que um aumento de cem pontos no Pisa pode representar 2% de crescimento no PIB de uma nação. Avançar 50 pontos seria um salto de qualidade inédito, arrojado e possível, mas que somente será alcançado se tivermos líderes comprometidos em cumprir o conjunto de iniciativas já tantas vezes apresentadas como urgentes, mas retiradas de jogo sem que suas consequências, para os alunos e para todo o País, fossem pensadas.

Agora é essencial que o governo federal ponha foco no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que vence em 2020. Sem essa tão importante ferramenta de redistribuição de recursos as desigualdades da educação brasileira podem aumentar. Podemos deixar de ter, por exemplo, itens essenciais como merenda, transporte escolar e material didático para milhões de estudantes – justamente os que estão nas cidades mais pobres e mais precisam de atenção. O ideal seria garantir que o Fundeb, em sua nova versão, fosse aprimorado e, além de ter garantia de continuidade, passasse a ser também mais redistributivo e avaliado constantemente. Além disso, a Base Nacional Comum Curricular, que o Brasil finalmente conquistou, precisa de muita força e apoio nos Estados e municípios para sair do papel.

Como sabemos, nenhum país consegue evoluir na qualidade da educação sem a valorização dos seus professores. Está no forno do Conselho Nacional de Educação (CNE) a Base Nacional Comum para Formação de Professores, que precisa ser concluída e aprovada. Peças-chave para uma educação de qualidade, os professores devem dominar o conteúdo, ao mesmo tempo que devem entender o contexto em que a comunidade escolar está inserida. Precisam dominar a didática ao mesmo tempo que precisam estabelecer vínculos e estimular os seus alunos, como fazem os países que viram transformações reais ocorrendo na sala de aula depois de trabalharem os seus professores.

O Dia da Educação é um ótimo momento para refletir sobre a sua importância para o Brasil e, assim, estimular a população a se mobilizar em torno de uma agenda que precisa ser posta em prática o mais rapidamente possível. Os temas são factíveis e a sociedade brasileira tem de estar disposta a colaborar e pensar em como pode atuar pela causa. Que esse dia seja a faísca para acender essa fogueira tão importante.

*PRESIDENTE DO CONSELHO DO INSTITUTO PENÍNSULA – QUE ATUA PARA APRIMORAR A FORMAÇÃO DE PROFESSORES –, É COFUNDADORA DO MOVIMENTO TODOS PELA EDUCAÇÃO E CONSELHEIRA DOS PARCEIROS DA EDUCAÇÃO

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