Uma pergunta que vale ouro

Ânimo recomendado a investidores será inútil se não se livrarem do simplório entendimento do populismo como simples demagogia.

Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2022 | 03h00

A pergunta que de fato importa é esta: algum megainvestidor estrangeiro destinará seus bilhões a um país governado por Lula ou Bolsonaro?

Ou, ao contrário, o Brasil terá de se virar com seus próprios meios para superar a estagnação econômica e dar um mínimo de proteção aos segmentos mais vulneráveis da sociedade? Quais meios? Em 2021, o crescimento da economia foi pífio, e 2022 não será melhor. O próximo poderá ser bem pior, caso se confirme uma tendência mundial recessiva, o que significa que, para nós, crescer zero por cento já estará de bom tamanho. E pode estar de bom tamanho, também, para meu hipotético megainvestidor, afinal ele não destina seus recursos aos países mais “cívicos”, e sim aos que lhe tragam algum retorno ou não lhe causem perdas muito grandes.

Do nosso ponto de vista, a questão é que traço aproxima figuras aparentemente tão díspares como Lula e Bolsonaro. Esse traço é, evidentemente, o populismo. No mundo empresarial, muitos tomam esse termo como sinônimo de demagogia, o que lhes traz certo alívio, pois sugere que o bicho é manso, ou facilmente domesticável. E está por toda parte, visto que a demagogia é um atributo onipresente entre as atuais elites políticas, nos Três Poderes.

Cultivando assiduamente essa visão balsâmica da política, nem os empresários do setor financeiro, aos quais é comum atribuir um superior tirocínio, se animam a estudar um pouco a história deste pedaço do mundo onde nos coube viver a fim de avaliar se políticos populistas, tendo ou não chegado à Presidência, fizeram realmente algum estrago. Nem a espantosa história da Argentina – país que esteve entre os mais ricos do mundo, com uma renda per capita superior à de uma grande parte da Europa e realizou a proeza de regredir ao subdesenvolvimento – lhes chama particularmente a atenção.

Mas, claro, o ânimo que lhes recomendo será inútil enquanto não se livrarem do simplório entendimento do populismo como simples demagogia. Populismo é sinônimo, isto sim, em primeiro lugar, de hostilidade às instituições democráticas. O que o termo indica é a propensão dessa espécie de político a atropelar as instituições, com o mal disfarçado objetivo de concentrar mais poder em suas mãos, de personalizá-lo e exercê-lo de forma arbitrária, pouco lhe importando a instabilidade que tal comportamento possa trazer à economia e à democracia. Atropelar as instituições não é uma simples indicação de ignorância, mas da pretensão de ser legitimado diretamente pelo povo, ou do que ele entende por povo, que é o “seu” povo, legitimidade essa apresentada como superior à das instituições do Estado.

Ou seja, entre o populismo e o Estado Democrático há uma incompatibilidade intrínseca, um fosso infranqueável. Da descrição acima pode-se facilmente deduzir que o populista de carteirinha não está nem aí para o chamado equilíbrio fiscal. Fazer o bem com o chapéu alheio é uma parte importante de sua especialidade. E fazê-lo transferindo renda diretamente a milhões de pessoas em situação de alta vulnerabilidade é uma oportunidade ímpar, uma dádiva divina.

Sim, caros leitores, o Brasil é um país que era feliz e não sabia. Em tempos idos, o “coronel” do interior (grande vilão daquela história política fictícia que nos recusamos a abandonar) aliciava seus eleitores oferecendo-lhes dentaduras ou pares de sapatos, pagos com dinheiro de seu próprio bolso. Tal prática podia ou não causar algum desgosto às elites urbanas, mas não representava nenhum risco para as instituições, de resto embrionárias, que mal se distinguiam do mando pessoal, ícone das etapas iniciais da construção democrática. Hoje, a situação é bem outra.

Comecemos por Jair Bolsonaro, concedendo-lhe a precedência que lhe é devida em função do cargo que ocupa. A sequência de crises que temos vivido “legitimou” transferências de renda em larga escala – a cem dias da eleição! – a fim de comprar a reeleição. Trata-se, sem tirar nem pôr, de um novo coronelismo presidencial, milhares de vezes maior que o velho coronelismo dos cafundós, sem a menor preocupação em sequer disfarçar a agressão que isso representa para o âmago do regime democrático: uma tentativa de anular o caráter competitivo que eleições normais devem ter, obtendo a reeleição a qualquer custo. Para um pobre escriba como eu, Bolsonaro é uma vantagem, pois dispensa-me de buscar explicações complicadas para o óbvio ululante. Ele mesmo se encarrega de insinuar que um golpe de Estado não está fora de suas cogitações.

Lula, mais esperto e tarimbado, decidiu vestir um figurino de populismo requintado, um esquerdismo em aquarela, que não incomoda nem a rapaziada que ouve suas falações matinais da carroceria de um caminhão nem os grandes empresários com os quais se avistará à tarde. A receita parece infalível, salvo por um detalhe. Se eleito, não terá nos próximos quatro anos aquele rio de dinheiro de seu segundo mandato, que lhe permitia agradar a todos. Terá de fazer escolhas, tomar decisões. Aí é que a porca torce o rabo.

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SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

 

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