Uma ponte entre a escola e as Amazônias

Iniciativa busca, a partir de um olhar sistêmico, inserir a região na discussão da educação brasileira.

Maria Alice Setubal, David Saad, Paulo Emílio Andrade, Ricardo Henriques e Fernanda Rennó, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 03h00

“Entre ideia/lugar existem muitas Amazônias porque são muitas! tantas, que para quem vive do lado de dentro, diversidade não é só possível; é real; (...)” (Marcela Bonfim, 2021)

A Amazônia deve fazer parte de cada um dos brasileiros, como algo vivo, que cabe a todos cuidar e conservar. É preciso conhecer essa diversidade, essas tantas regiões e tempos amazônicos exaltados no texto de Marcela Bonfim, ativista cultural que vive em Porto Velho, Rondônia.

Mas o que realmente sabemos sobre a Amazônia? Quando muito, sobre alguns aspectos naturais de uma longínqua selva úmida, homogênea e difusa, escassamente povoada por indígenas esperando para ser explorada. Como podemos nos (re)conhecer na(s) Amazônia(s)? Não existe uma resposta única, mas uma delas passa sem dúvida por um mergulho nesta diversidade para diminuir as desigualdades.

A educação tem papel fundamental neste processo. Na escola, aprendemos sobre o que nos constitui como povo. Nossos valores, características, línguas e formas de nos comunicar. É onde se forma o nosso jeito de ser, nossos modos de interagir e os sonhos para o presente e o futuro, como brasileiros.

Diante disso, cabem algumas perguntas: o que vem sendo ensinado sobre a Amazônia? Como os jovens aprendem sobre ela? Os estudantes têm sido desafiados a incorporá-la como parte de sua identidade?

Aqui, há uma grande oportunidade: a partir de 2022 as redes de ensino e escolas de todo o País vão passar a implementar os novos currículos de ensino médio – última etapa da educação básica e espaço essencial de formação para a maioria dos brasileiros. Propõe-se uma escola que convoca os jovens a construir seus projetos de vida, por meio de uma participação efetiva em seus processos de formação. Além das aulas relacionadas às áreas de conhecimento (Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Linguagens e Matemática), para as quais estão previstas 1.800 horas em três anos, os jovens vivenciarão itinerários formativos, com mínimo de 1.200 horas nas três séries, voltadas ao aprofundamento dos conhecimentos de tais áreas e da educação profissional e técnica e à construção de seus projetos de vida.

Na prática, os estudantes serão convidados a escolher itinerários que se conectam com seus interesses, contextos de vida e necessidades formativas. Para que isso se concretize, além das condições estruturais que as redes de ensino precisarão garantir, os professores serão desafiados a construir suas práticas com foco no desenvolvimento integral dos estudantes, partindo dos parâmetros da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dos novos currículos estaduais de ensino médio e, claro, de seus conhecimentos e experiências prévios.

As secretarias de educação, as escolas e os docentes estão se apropriando dessa inovação no ensino médio, finalizando a construção dos currículos (ou homologando-os), elaborando os itinerários formativos que serão ofertados aos jovens e iniciando programas de formação continuada.

A iniciativa Uma Concertação pela Amazônia, rede formada por pessoas, instituições e empresas, tem como propósito buscar soluções para a conservação e o desenvolvimento sustentável da região. Ela entende que sustentabilidade vai muito além de proteger a floresta, consiste em unir a iniciativa privada e o poder público para promover melhorias sistêmicas na educação e na qualidade de vida no País. Neste contexto de possibilidades e desafios, está sendo desenhado um programa que pretende reunir técnicos das redes de ensino dos nove Estados que formam a Amazônia Legal, professores de ensino médio da região e especialistas para construir um conjunto de ações com o propósito de inserir a Amazônia, a partir de um olhar sistêmico, na discussão da educação brasileira. Para apoiar a implementação dos novos currículos, haverá uma contribuição no processo de concepção, pelos profissionais vinculados às redes de ensino, de itinerários formativos de aprofundamento, de eletivas e de projetos de vida que coloquem a Amazônia na pauta da vivência juvenil. Junto disso, uma colaboração no campo das políticas de formação de professores e gestores das escolas, por meio da realização de um programa de formação continuada de educadores.

A intenção é de que todo o conhecimento construído coletivamente concilie racionalidade e sensibilidade, trazendo à tona a diversidade de questões, interesses e demandas dessa região e de seus jovens. Vale ressaltar, o design da proposta inclui atenção muito grande a implementação, instrumentos, modelos e governança, para que todo este esforço se concretize da melhor e mais eficiente forma possível. Toda essa produção inspirará a vivência escolar dos jovens da Amazônia Legal, mas também estará disponível para as demais redes de ensino do País, contribuindo para que as juventudes brasileiras compreendam que a Amazônia é parte de si. Não só os que estão do lado de dentro, como diz Marcela, mas também os que estão do lado de fora. A escola é capaz de alimentar reflexões e promover experiências potentes sobre a Amazônia.

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INTEGRANTES DA INICIATIVA ‘UMA CONCERTAÇÃO PELA AMAZÔNIA’, SÃO, RESPECTIVAMENTE, PRESIDENTE DO CONSELHO CURADOR DA FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL; DIRETOR-PRESIDENTE DO INSTITUTO NATURA; DIRETOR DO INSTITUTO IUNGO; SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DO INSTITUTO UNIBANCO; E PHD CONSULTORA DO INSTITUTO ARAPYAÚ

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