Uma vacina rudimentar no século 2º

Na Roma antiga, o rabino Matya já falava em imunização Shaná tová!

David Weitman, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 03h00

Nestes dias estamos comemorando o ano novo judaico, Rosh Hashana, 5.781 anos da criação de Adão e Eva, pai e mãe de toda a humanidade. Esta data também é conhecida como o Dia de Julgamento (Yom Hadin), quando cada ser humano é julgado individualmente e emitimos sons de um shofar (chifre de carneiro usado como instrumento de sopro) para acordar a nossa alma adormecida. Neste período, estamos nos concentrando em fazer um balanço sincero de nossas atitudes, analisamos nossos atos do passado, corrigimos eventuais erros e tomamos boas decisões para o futuro.

Verdade dita, o shofar da pandemia e do isolamento colocou-nos nos últimos meses em situação semelhante: fomos desafiados a rearticular nossa vida, a redefinir as nossas verdadeiras prioridades e aspirações, quem somos e quem queremos ser. Reforçamos princípios e valores e corrigimos erros. Aliás, o único erro real é aquele do qual não aprendemos nenhuma lição.

E agora aguardamos um novo começo, uma infusão de esperança e vitalidade. Com milhares de cientistas pesquisando a covid-19 e dezenas de laboratórios realizando testes para encontrar a vacina – alguns já em fase final –, a esperança pela imunização cresce a cada dia. Apesar de ainda haver muitas dúvidas e incertezas sobre como o vírus age, a expectativa pela vacina é grande, chegando à ansiedade.

O bom sinal é que já estamos na fase das polêmicas, que habitualmente precedem a fase da ação: quem será vacinado primeiro? A vacina será obrigatória? Haverá uma campanha igualitária e acessível? Seremos capazes de produzir vacinas para todos? Faltarão frascos?

Normalmente, quando estudávamos na escola a descoberta da imunização, ela sempre era atribuída ao dr. Louis Pasteur, no ano de 1885, com sua vacina antirrábica. Hoje, que o assunto está em voga, muito se fala do dr. Edward Jenner, que em 1796 revolucionou a medicina com um método rudimentar de injetar pus de alguém infectado com a varíola bovina, na pele de outra pessoa. Seria ele, então, o pai da vacina (cuja etimologia deriva da palavra vaca).

Porém os pesquisadores indicam que em 1714 médicos gregos já praticavam em Constantinopla a inoculação, conforme publicações da época. Outros referem que essa técnica já era usada na China medieval, durante a dinastia Ming (conforme estudo da Cambridge University Press).

Todavia, na minha leitura de artigos e estudos recentes a respeito da vacina, não vi nenhuma menção a uma fonte bem mais antiga. Refiro-me aos escritos judaicos do século 2.º. Assim está escrito no Talmud da Babilônia: “Disse Rabi Matya ben Charash: ‘Alguém que foi mordido por um cachorro louco (infectado pela raiva) deverá ser alimentado com um lóbulo do fígado desse cachorro’” (Mishná Yomá 84b, ano 175 E.C.).

Os sábios judeus do início da era comum já sabiam que um corpo infectado produz anticorpos que podem imunizar pessoas mordidas ou contaminadas pela mesma infecção. O método era rudimentar, porém avançado e eficaz para a época.

Quem era esse sábio rabino Matya? Quando os romanos baniram o estudo da Torá na Terra de Israel, rabi Matya, no século 2.º, foi para Roma, onde estabeleceu uma escola talmúdica (yeshivá), que se tornou a maior de sua época. Apesar de ter sido o grande líder da diáspora judaica no exílio romano, ele sempre se manteve com grande humildade.

Encontramos outro dito dele no Talmud: “Rabi Matya ben Charash disse: ‘É melhor ser um rabo de leão do que uma cabeça de raposa’” (Avot 4:15).

Vivendo em Roma e conhecendo de perto a disputa dos governantes pela coroa, parece que as palavras de rabi Matya são uma reação à famosa frase dita pelo imperador Júlio César ao passar por uma pequena aldeia: “É preferível ser o primeiro homem nesse vilarejo do que o segundo em Roma” (citado por Plutarco). O sábio hebreu não hesita em criticar o ditador romano por sua ambição pelo poder, pregando sempre a humildade.

Rabi Matya, que já naquela época entendia que para haver a imunização é preciso inocular uma quantidade pequena e controlada da doença, nos dá aqui uma tremenda lição: certos traços de caráter indesejáveis podem ser úteis se forem diluídos em pequenas doses.

Por exemplo: a teimosia, em determinadas situações e na proporção correta, pode ajudar o homem a não tropeçar. A depressão, chamada de “o mal do século” (e que nos impede de “servir a D’us com alegria” – Salmos 100:2), pode ser positiva – numa mistura de pouca melancolia com bastante júbilo –, levando o homem a uma reflexão sincera para corrigir seus atos.

É o mesmo princípio da vacina: rápido demais e em dose exagerada não serve. Afinal, estamos absorvendo traços infectados, mas a dose correta pode salvar. Porém, Rabi Matya afirma que há uma exceção: a arrogância e o orgulho são toxinas tão prejudiciais que precisam ser erradicadas totalmente. Não há lugar para o ego inflado. É melhor ser o segundo entre os leões do que o primeiro entre as raposas. Essa é uma lição válida para todos os tempos.

Na proximidade do ano novo judaico de 5781, desejo a todos um ano repleto de saúde e felicidades. Shaná tová!

RABINO-CHEFE DA CONGREGAÇÃO BEIT YAACOV, SÃO PAULO

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