Uma visão ambiental com mais profundidade

Temos de superar os antigos paradigmas que nos colocavam como donos da natureza.

Josafá Carlos de Siqueira, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

Ficamos perplexos e profundamente preocupados ao ver as posturas políticas sobre as questões ambientais em nosso país, num contexto mundial em que a consciência ecológica aumentou de maneira considerável nos últimos anos, associada às preocupações internacionais em preservar os biomas e ecossistemas onde vivem centenas de espécies vulneráveis ou ameaçadas de extinção. Além de não ocupar lugar central nas políticas públicas, o meio ambiente continua sendo tratado por alguns como uma questão ideológica ou secundária, provocando, assim, divisões e dissensos sobre essa temática tão transversal e de grande interesse para o bem comum.

Existe um desejo maior da parte das ciências e da sociedade, o de que o meio ambiente, patrimônio da humanidade, esteja presente em todas as estruturas políticas, constituindo matéria de consenso, e não de defesa contra algumas evidências destruidoras que há anos se vêm verificando no Brasil e em vários outros países do mundo. Deveríamos trazer para as discussões socioambientais questões mais profundas que estão sendo tratadas por alguns pensadores atuais, sobretudo na área da ética ambiental, em que o meio ambiente, a natureza não podem mais continuar sendo vistos como objeto de domínio por algumas pessoas, ou de políticas equivocadas de alguns governos, esvaziando o seu sentido ontológico e axiológico.

A perda dessa racionalidade axiológica, pelo domínio de uma racionalidade tecnológica de resultados imediatos, é que vem provocando atitudes eticamente contraditórias na relação do ser humano com a natureza. Esquece-se – por questões ideológicas, econômicas ou mesmo por falta de conhecimento mais profundo – que a natureza é portadora de valores e sujeito de deveres e direitos, e não objeto manipulável para atender às nossas necessidades utilitaristas, imediatistas e comerciais. 

A causa profunda da crise ecológica é a perda dessa visão axiológica, esvaziando os valores e as diversas formas de inteligência existentes na natureza. Esse empobrecimento de visão é que causa posturas contraditórias com a racionalidade ambiental, que hoje extrapola as fronteiras de países e nações.

Talvez o maior desafio atual consista em se opor a essa visão estreita sobre as questões ambientais, incapaz de perceber que não podemos mais tratá-las separadamente das questões econômicas, sociais e internacionais, pois a sua transversalidade permeia as diferentes estruturas de governo, muito além das tendências políticas de direita ou de esquerda. A mudança de uma cosmovisão instrumentalista e autoritária para uma visão mais axiológica, democrática e dialogal, ainda é o melhor caminho para superar alguns problemas ambientais presentes na sociedade.

O aumento na escala de alguns problemas ambientais que são acompanhados por hábitos e costumes ecologicamente insustentáveis é uma realidade que devemos enfrentar dialogando com a sociedade, as ciências e os diferentes Poderes constituídos em nosso país. Pois só assim conseguiremos superá-los e mostrar ao mundo o orgulho que temos de ser uma nação rica em recursos da natureza, e possuidora de um potencial extraordinário de uma megabiodiversidade. 

Discursos antroposcópicos e carentes de uma visão mais sistêmica de nossa relação com o meio ambiente encontram cada vez menos eco numa sociedade que se tornou mais sensível à preservação da natureza, ampliando e facilitando o acesso às informações fornecidas pelas ciências. Além da considerável evolução da consciência ecológica, que hoje ocupa um espaço entre as novas gerações. 

Posturas defensivas ou contrárias às ciências, que desconstroem estruturas construídas em consonância com a sociedade e os preceitos constitucionais, não são o melhor caminho para se criar um consenso sobre as questões ambientais que são relevantes e fazem parte do bem comum da sociedade local e internacional. É preciso valorizar a dimensão teleológica do meio ambiente, pois ele é um patrimônio posto em nossas mãos para ser cuidado e preservado responsavelmente, muito além de nossas ambições humanas e manipulações políticas. 

Temos de superar os antigos paradigmas antropocêntricos, que nos colocavam como donos e proprietários da natureza, cuja história biológica e evolutiva é anterior à nossa presença na Terra. Ao contrário, como nos recorda a encíclica Laudato Si’, somos apenas guardiões e cuidadores da criação, procurando amar e zelar por algo que é fundamental para a vida e o equilíbrio planetário.

Não temos o direito de deixar para as gerações futuras uma natureza ferida pela destruição e queimada pelas nossas ambições desmedidas.

Que nestes tempos difíceis e polarizados, em que enfrentamos muitos desafios entre a preservação ambiental de nossos biomas e ecossistemas e a busca de um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável, não esqueçamos que uma mudança de mentalidade é necessária para não empobrecer os grandes valores éticos que enriquecem a nossa relação com o meio ambiente.

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PROFESSOR DE ÉTICA AMBIENTAL, É REITOR DA PUC-RIO

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