Vacinação, política e religião – uma leitura judaica

A vida antepõe-se a tudo. Nada pode ser mais urgente do que salvar uma vida

Ruben Sternschein, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 03h00

A possibilidade de salvar vidas não parece ter a mesma urgência em toda a humanidade. As primeiras vacinas contra a covid-19 tiveram a aprovação e o início da aplicação há um mês. Mais de 50 países estão vacinando, em ritmos diferentes. Israel encabeça o ranking da velocidade, com 12% da população vacinada em dez dias. Se continuar assim, em três meses toda a população israelense estará vacinada.

No Brasil, o esperado e misterioso começo da vacinação, anunciado para 25 de janeiro, já está sendo ameaçado por um possível 10 de fevereiro. Parece que a pandemia, além de todas as mudanças, trouxe alguma triste indiferença diante da morte, que virou estatística. Ao menos por aqui. Entre as notícias é cada vez mais difícil encontrar histórias sobre indivíduos. O nome, os olhos, os parentes, as carreiras e os sonhos dos mortos pela covid-19 se perdem nos gráficos, nas estratégias e nas políticas.

Se diante de um prédio em chamas a equipe de bombeiros começasse a debater preços, materiais, estratégias, hierarquias ou teologias, enquanto morre grande parte dos moradores, seguramente essa equipe seria processada e condenada. Pelo menos por omissão. Em algumas sociedades, por homicídio. Mais ainda se abandonasse o prédio para se dedicar a qualquer outro afazer, em vez de salvar vidas.

O Brasil é vítima do coronavírus, como todos os países contaminados, só que, diferentemente de mais de 50 deles, ninguém parece considerar a urgência da sua ameaça. Quando chegar o tão esperado dia 25 de janeiro, o que diremos às pessoas que morreram no dia 24? E a todas as que morreram desde que as vacinas foram aprovadas, até o dia 25?

Na tradição judaica, a vida se antepõe a tudo. A conclusão da Torá (o Pentateuco) se expressa no mandamento de escolher a vida (Deuteronômio 30). A vida de todos. Proativamente. No Talmude (literatura rabínica dos séculos 3-6 da era comum) discute-se a situação imaginária de duas pessoas no deserto com água suficiente para salvar apenas uma delas. Os rabinos não cogitaram de que a hipótese viesse a ser uma realidade cotidiana nos campos de extermínio nazistas, onde seres humanos morriam de fome ou por falta de vacinas, ainda antes de serem asfixiados nas câmaras de gás ou fuzilados pelo simples fato de serem judeus. Os rabinos do Holocausto não titubearam em prescrever o consumo de qualquer alimento, por mais contrário que fosse às leis alimentares judaicas. Quem não consumia alimentos “proibidos” pecava por ter-se apegado a um preceito, em vez de transgredi-lo para salvar a vida. Própria ou de outrem. A transgressão virou preceito, em prol da vida.

Em Levítico 19, o mandamento que antecede o do amor ao próximo é seu aspecto prático: não permanecer passivo enquanto ele estiver sangrando. Para a lei judaica, nada pode ser mais urgente do que salvar uma vida. Quem tiver a possibilidade de fazê-lo tem proibida qualquer distração, por mais nobre que seja. Obviamente, não tem direito a férias ou lazer. Qualquer ocupação diferente de salvar – e pior, que atrapalhar a dedicação de uma pessoa a salvar vidas – é considerada um pecado. Até mesmo pedir a salvação de Deus ou atender o Messias ou o próprio Deus.

A ideia de que tudo depende só de Deus, ou de qualquer outra força, sem a necessidade nem a possibilidade de intervenção humana, é contrária ao judaísmo clássico. A anedota da pessoa que estava se afogando enquanto rejeitava a ajuda de uma lancha, de uma boia, de um barco e, por último, de um helicóptero pode resumir a teologia judaica nesse sentido. Segundo essa história, a pessoa morre e, ao subir ao céu, reclama a Deus por não a ter salvado. Deus responde, então: “Mas eu enviei a você uma lancha, uma boia, um barco e um helicóptero!”.

Até os mais fundamentalistas dentre os judeus acreditam que estão proibidos de contar apenas com o milagre. Todos precisam agir. Os rabinos ultraortodoxos pregam que a passividade inibe a intervenção divina. Não se esforçar até o limite de esgotar as possibilidades humanas antes de rezar impede Deus de agir.

No judaísmo liberal, a ação em prol do conserto do mundo e da sociedade humana é a essência da religiosidade, a razão primeira e final de todo preceito. A literatura rabínica conta que um romano desafiou um mestre judeu dizendo que a ação social é um ato de arrogância e blasfêmia: “Se Deus quisesse que não houvesse pobres nem doentes, impediria que sobreviessem esses males”. Se esses problemas existem, seria parte da vontade de Deus e não seriam os meros mortais que mudariam o cenário, segundo o romano. O mestre judeu respondeu que o sentido da existência é aperfeiçoar a obra da Criação. Agir para transformar e consertar.

Provavelmente dinâmicas políticas e interesses eleitorais estão entre as razões que motivam a intensidade da vacinação israelense. Gostaria de acreditar que o ethos judaico acima exposto tenha também alguma influência nessa ação.

Após escrever estas linhas como ato em prol da vida dos brasileiros, rezarei para que todos lhe deem prioridade – acima de tudo.


DOUTOR EM FILOSOFIA JUDAICA PELA USP E PESQUISADOR DA UNIFESP E DA USP, É RABINO DA CONGREGAÇÃO ISRAELITA PAULISTA

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