Várias ambições na falta de uma estratégia

Centrão opera como minoria de veto, mas é incapaz de convergir sobre agendas positivas.

José Augusto Guilhon Albuquerque, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 03h00

Estamos numa democracia representativa, e o cidadão é o único portador da soberania do Estado. Melhor dizendo: ainda estamos numa democracia e o Estado de Direito funciona, mas a insegurança jurídica é a única certeza. As instituições operam de maneira disfuncional. Os privilégios e as desigualdades crescem ou se consolidam. E a autoridade do cidadão sobre seus representantes sofre a ameaça de uma reforma eleitoral que esvazia, ainda mais, o papel do eleitor. Como se não bastasse, um golpe de Estado está em andamento desde 2019, ante a omissão dos Poderes da República.

Além dos desafios sanitários, econômicos e sociais que ameaçam nossa sobrevivência como nação livre, enfrentar a ameaça golpista é a condição necessária para enfrentar as demais. Encarar tal ameaça exige definir um objetivo, isto é, enfrentar, contornar ou adaptar-se a ela. Exige, também, mobilizar recursos para atingir esse objetivo inescapável: recursos de poder, econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública, de liderança, etc. Ou seja, confrontar-se com uma ameaça letal implica responder a esses elementos básicos de uma estratégia.

Falta um movimento decidido das instituições e de suas lideranças para cumprir tais requisitos. Em primeiro lugar, não há convergência, nem muito menos consenso, sobre a ameaça letal à Nação provocada pelo golpe em andamento.

Para alguns, o que deve ser combatido, acima de tudo, é a ameaça de perder as eleições, como é o caso de Lula, do PT, e de parte dos partidos de esquerda – e também de Ciro Gomes e João Doria, embora não necessariamente de seus respectivos partidos. A prioridade máxima do objetivo eleitoral obriga esses candidatos a adotarem uma estratégia ambivalente em face da ameaça de golpe. Para todos eles, é vital garantir Bolsonaro nas urnas e, para isso, é preciso mantê-lo no poder.

Para Bolsonaro, perder a reeleição, sofrer impeachment, ter sua eleição anulada, perder a guerra da pandemia, descumprir sua promessa de deixar um legado de pai dos pobres e desproteger sua família de denúncias criminais são obstáculos secundários. E decorrem da ameaça imaginária de usurpação definitiva de um alucinatório poder absoluto, que lhe teria sido conferido pela divindade que o fez “mito”.

Tal multiplicidade de alvos o força a empregar uma metralhadora giratória, provocando baixas em sua própria retaguarda. O caráter fragmentado de seus objetivos o impede de manter o foco na eliminação dos usurpadores de seu direito ao poder absoluto, o que demandaria alguma forma de golpe de Estado.

Como podemos observar, a cantilena da inevitabilidade de uma polarização radicalizada entre Lula e Bolsonaro nada é senão uma narrativa tendenciosa de ambos para desmoralizar a inclinação majoritária da opinião pública para a moderação, desacreditando os candidatos, os partidos e as políticas sociais e econômicas que precisam ser debatidos na campanha, para serem adotados num próximo governo.

Alternativas, como Arthur Lira e seus seguidores, não faltam. Para estes, as principais ameaças são o impeachment do atual presidente e sua sucessão por Mourão, o que eliminaria a possibilidade de este setor do Centrão controlar, simultaneamente, o Executivo e o Congresso. Para outros setores do Centrão, que parecem aproximar-se do vice-presidente, a ameaça vital seria o oposto, isto é, a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral, que os tiraria do jogo.

Por falta de uma estratégia de poder que o unifique, o Centrão confirma o que venho observando neste mesmo espaço: que este grupo de pressão opera como uma minoria de veto, capaz de unir-se para derrotar governo ou oposição, mas incapaz de convergir sobre agendas positivas. Essa fragmentação é útil para uma minoria de veto. Mas inviabiliza o governo de franquia – hoje exercido pela dupla Ciro/Lira – e também eventuais ambições presidenciais. O descolamento do PSD de Kassab e a possível criação de um grande partido de direita, resultante da fusão entre o DEM e o PSL, reforçam os obstáculos para a adoção de uma estratégia comum para o Centrão.

Um grupo de quatro possíveis candidatos – que chamarei de políticos novos, porque se empenham numa via independente, não são velhas raposas, não se deixam acorrentar ao passado, não são aventureiros nem extremistas – tem um alvo comum, que é enfrentar a ameaça representada hoje pela tentativa de golpe ainda em andamento. No comício do dia 12 de setembro, todos – Simone Tebet, Alessandro Vieira, Eduardo Leite e Luiz Henrique Mandetta – convergiram sobre a inevitabilidade do impedimento do atual presidente, que é o primeiro passo para adotar uma estratégia comum, pois é indispensável para garantir uma eleição livre em 2022.

Sobre esses “políticos novos” recai hoje a responsabilidade de negociar a mobilização dos recursos econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública e de liderança, necessários para garantir a presença e a competitividade de candidatos da terceira via.

*

PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.