Vendo gente de rabo preso

Arthur Lira não é livre nem independente, porque pode perder os cargos e vantagens

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2021 | 03h00

A língua portuguesa tem expressões bastante curiosas e uma delas é quando se diz que “fulano está com o rabo preso”. Além do sentido literal, estar com o rabo preso significa estar obrigatoriamente dependente de outro e obrigado a fazer o que esse outro desejar.

É o caso em que se encontra, por exemplo, o deputado federal Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, que foi eleito para o cargo pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Esse deputado alagoano já não tem vontade própria, nem a liberdade que lhe permitiria, por exemplo, dar andamento ao processo de impeachment, prerrogativa somente dele.

Jair Bolsonaro proporcionou-lhe muitas e preciosas vantagens. Realmente, o presidente transferiu-lhe grande poder, até o de ser o terceiro no caso de vaga da Presidência da República. Quando percebeu que precisaria ter a Câmara dos Deputados aos seus pés, e não ficar, como Dilma Rousseff, dependente dela, Bolsonaro criou um grupo de aliados que o seguiram e ainda estão ao seu lado.

Esse grupo recebeu o nome de Centrão e dele fazem parte deputados que negociaram e continuam a receber vantagens para rezar pela cartilha de Bolsonaro. Lula fez isso na sua época, quando liberou José Dirceu para gastar o que fosse necessário para formar a aliança capaz de permitir, no Legislativo, transformar progressivamente o Brasil numa enorme Cuba.

Os deputados e senadores que foram amansados por Bolsonaro sabem que perderão cargos e vantagens se não obedecerem fielmente ao que o patrão lhes ordena. Bolsonaro sabe distribuir poder, mas também sabe cobrar, ou seja, sabe mostrar que pedirá de volta o que foi dado e que causará enormes perdas de poder aos desobedientes.

Essa é a situação em que se encontra o deputado federal alagoano Arthur Lira, que não é nem livre nem independente, porque pode perder os cargos e vantagens. Em situação igual se encontram outros aliados, para não dizer vendidos, que obtiveram cargos e vantagens no governo federal.

Acredita-se que Arthur Lira e os aliados do desconfiável Centrão só abandonarão Jair Bolsonaro se perceberem, claramente, que estão na mesma canoa, que ela começa a afundar e eles poderão ir junto.

Parecia que os aliados do Centrão jamais o abandonariam. Mas, como costumam dizer os sabidos políticos mineiros, a política é feita de fatos novos e tudo muda de uma hora para outra. Por exemplo, com o clamor das ruas e a incontrolável compulsão de Bolsonaro de continuar a agredir a Nação, dando de ombros diante das milhares de mortes pela covid-19, ou escorregando para a imoralidade e a corrupção na compra de vacinas, uma nova realidade se impõe gradativamente, criando quase a repetição da situação vivida pela ex-presidente Dilma Rousseff quando o cerco se apertou em torno dela.

O crime de responsabilidade, exigência constitucional necessária para o avanço de processo no Legislativo contra o presidente da República, precisa estar perfeitamente caracterizado para ter sua tramitação regular. Conceituados juristas vêm entendendo que a conduta negacionista de Bolsonaro o tornou responsável pelo grande número de mortes pela covid.

Sempre se diz que para prosperar no Congresso Nacional um processo de impeachment são necessárias também as vozes das ruas, não bastam a presença do crime e suas consequências. Assim foi nos casos de Fernando Collor de Mello e de Dilma Rousseff, quando a população, com voz praticamente única, passou a exigir o afastamento.

Curioso observar que o presidente Bolsonaro continua seduzido pelos aplausos que ainda recebe quando aparece em público. Isso faz lembrar o saudoso poeta Augusto dos Anjos e o imortal verso “a mão que espanca é a mesma que acaricia”.

Muitos que o acariciaram nos últimos tempos, batendo palmas até as mãos doerem, pouco a pouco se desapontaram e hoje se encontram na posição de querer atirar pedras. Há, sim, um desapontamento coletivo em relação a Jair Bolsonaro, basta conferir, a propósito, as sucessivas pesquisas de opinião pública, que, unanimemente, mostram a queda de sua popularidade e a desaprovação crescente.

Bolsonaro e seus filhos costumam tentar desacreditar essas pesquisas, com as repetidas alegações de que foram pagas para apontar resultados do agrado dos opositores. Sucede que entre os pesquisadores há órgãos de reconhecida competência e credibilidade, incluídos os que previram, com enorme antecipação, a eleição de Bolsonaro.

Ele está mesmo em queda, principalmente porque, ao estilo das milícias cariocas, das quais parece originário, mostra-se sempre pronto a pretender resolver as coisas “na porrada”. Essas as razões pelas quais investe com fúria contra os jornalistas que o entrevistam e contra a imprensa em geral. Se estão contra mim é porque estão vendidos – esse parece ser a repetida conduta do presidente, sem perceber que assim agindo caminha cada vez mais rumo ao despenhadeiro.


DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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