Verdadeiras e falsas lideranças

Toneladas diárias de decisões e declarações irresponsáveis agravam a situação do País

Luiz Felipe D’Ávila *, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 03h00

A crise nos permite distinguir entre as verdadeiras e as falsas lideranças. A verdadeira liderança mobiliza as pessoas para enfrentar os reais problemas e não minimiza os sacrifícios e as perdas que a sociedade terá de enfrentar para construir um futuro melhor. O verdadeiro líder usa a sua influência para fomentar a cooperação entre os setores público e privado e orquestra o esforço coletivo do governo e da sociedade civil na busca de soluções concretas para superar os desafios da crise.

As falsas lideranças minimizam os reais problemas e sufocam as iniciativas dos seus liderados porque não querem perder o protagonismo. Elas se preocupam em cultivar o aplauso dos seus seguidores, em vez de desafiarem as pessoas a se engajar na resolução dos reais problemas. Infelizmente, a crise produziu uma supersafra de falsas lideranças. São toneladas diárias de decisões e declarações irresponsáveis que agravam a já debilitada situação econômica e social de um país dilapidado pelo populismo de esquerda e de direita. Mas a crise revelou também verdadeiras lideranças, como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

Discreto, Leite evitou os holofotes das contendas nacionais com o governo federal e focou sua atenção e seu esforço em seu Estado. Enquanto o governador do Rio de Janeiro aprovou um aumento salarial do funcionalismo público, o governador do Rio Grande do Sul cortou o próprio salário em 30% e pediu a seu secretariado que lhe seguisse o exemplo. Enquanto o presidente da República polemizava com o seu ex-ministro da Saúde e os governadores, na imprensa, e tornava inviáveis as ações coordenadas dos governos federal e estaduais, Eduardo Leite buscou o diálogo e a união entre o governo estadual, o setor privado e as lideranças da sociedade civil.

Essa união foi vital para o Estado enfrentar a crise. O governador criou o Conselho da Sociedade, para dar respaldo ao gabinete de crise do governo. Falsas lideranças criam conselhos para fazer propaganda de seus feitos e pedir dinheiro ao setor privado. Verdadeiras lideranças concebem esses fóruns para escutar as demandas e preocupações da sociedade e explicar as ações do governo. O Conselho da Sociedade reuniu informações, conhecimento, recursos para ajudar o governador a tomar decisões importantes.

A diferença entre o verdadeiro e o falso líder é que o primeiro toma decisões com base em dados, fatos e evidências, enquanto o segundo se baseia nas sondagens da opinião pública, no termômetro das redes sociais e no seu feeling pessoal. No Rio Grande do Sul foi realizada uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas para averiguar o número de gaúchos infectados pela covid-19. Foram testadas 4.189 pessoas em diversas cidades; apenas duas delas deram positivo. Com esses dados, estima-se que existam 5.560 pessoas infectadas num Estado de 11 milhões de habitantes. Criou-se também um painel de controle com os principais indicadores de saúde, segurança, econômico e social do Estado para balizar as decisões do governo. Esses indicadores servirão de base para o governador promover a abertura controlada do Estado a partir de 1.º de maio.

Essa relação de confiança, transparência e diálogo franco do governador com o poder público e a sociedade civil nasceu muito antes da crise. Assim que assumiu o governo do Estado, Eduardo Leite enviou à Assembleia Legislativa um orçamento deficitário, que abriu um debate importante sobre as necessidades, prioridades e os cortes orçamentários que teriam de ser feitos para conciliar o desejo dos deputados com a realidade dramática das finanças estaduais. Com firmeza, paciência e muito diálogo com os parlamentares e diversos segmentos da sociedade, Eduardo Leite construiu consenso político em torno do corte de despesas e da aprovação das reformas previdenciária e administrativa no Estado.

O governo gaúcho incluiu todas as categorias do funcionalismo público na reforma previdenciária, os militares incluídos. A reforma administrativa determinou um novo estatuto dos servidores públicos que acaba com privilégios, como as gratificações por incorporação, os acréscimos dos anuênios e reajustes automáticos de salários. Além disso, alterou o estatuto do magistério, permitindo estancar o aumento em cascata do salário-base para toda a categoria - inclusive os inativos - e oferecer um salário melhor para os professores entrantes na carreira. As reformas do Rio Grande do Sul foram as mais profundas e ousadas de todos os Estados brasileiros.

Exemplos como o governador Eduardo Leite revelam que as verdadeiras lideranças do País emergirão dos governos locais e da sociedade civil. São líderes que estão na ponta, enfrentando os reais problemas, inspirando as pessoas com suas ações e seus exemplos, mobilizando a sociedade civil em torno de soluções inovadoras. As verdadeiras lideranças renovam a esperança de sairmos da crise mais confiantes na democracia e na nossa capacidade de sepultar as falsas lideranças pelo voto.

* FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA (CLP), É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS - DO PAÍS QUE SOMOS PARA O BRASIL QUE QUEREMOS’

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