Virtudes cristãs para um mundo melhor em 2020

O que precisamos é de construtores de pontes, de menos acusação e mais diálogo

Luiz Felipe D’Ávila *, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2019 | 03h00

Dia de Natal é uma ótima ocasião para refletir sobre os valores cristãos. Jesus nos deu apenas dois mandamentos: amar a Deus acima de tudo e amar ao próximo como a ti mesmo. O amor está no epicentro do cristianismo. Ele é a fonte da misericórdia divina. Para Deus nos perdoar, é preciso termos consciência das nossas faltas e pecados. Por isso, culpar o outro e julgar o próximo, ao invés de reconhecer os próprios erros, é a maneira pela qual endurecemos o coração, renunciando ao poder transformador do amor e da compaixão. A misericórdia divina se revela quando somos capazes de perdoar os outros e a nós mesmos.

Nem a misericórdia divina é capaz de perdoar o pecado dos corações endurecidos pelo orgulho, pela soberba, pelo poder e pela incapacidade de reconhecer os seus erros e fraquezas. Por isso, Jesus condena a hipocrisia dos fariseus: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça”. Esse mesmo sentimento de indignação deveria nos inspirar a nos mobilizarmos contra os fariseus dos nossos tempos: os populistas.

Assim como os fariseus, os populistas se arvoram de ser a única voz legítima da vontade popular. Eles usam o poder para destruir a credibilidade das instituições e das leis; cerceiam as liberdades individuais, dividindo a nação entre “nós e eles”, e se apresentam como salvadores da pátria e restauradores da ordem, da direção e da proteção do povo contra os inimigos internos e externos do país. Esses fariseus modernos precisam ser destruídos por meio do exercício das virtudes cristãs.

Em 2020, vamos nos comprometer a restabelecer o diálogo e a tolerância com aqueles que pensam diferente de nós; vamos combater o radicalismo criando espaço para o entendimento e reconhecendo os pontos comuns que nos unem, mas também as diferenças que nos separam. Deixemos de lado o impulso primitivo de jogar pedra nos outros, de julgar e condenar aqueles que não pertencem à nossa tribo e não comungam das nossas crenças.

Será preciso muita coragem para construirmos pontes numa época dominada pela polarização, pelo ódio e pelo obscurantismo. Ao mostrar a capacidade de dialogar com os “adversários”, seremos considerados traidores pelos membros da nossa tribo. Ao reconhecer a legitimidade e as reivindicações do “inimigo”, seremos acusados de fracos e de ingênuos. Ao buscar o entendimento e a paz, despertaremos o ódio dos fanáticos que só encontram a razão de existir no mundo simplista do “nós e eles”.

Jesus foi um construtor de pontes. Mostrou que a misericórdia e o perdão dos pecados não eram privilégios do povo judeu, mas também dos pagãos que se convertessem à fé. Os seus milagres foram estendidos aos pobres e ricos, judeus e pagãos que demonstraram fé em Deus. Foi assim que Jesus transformou o cristianismo numa crença universal, e não apenas no privilégio de um povo ou de uma raça.

O mundo moderno precisa de construtores de pontes; de menos tribalismo e mais civilidade; de menos acusação e mais diálogo; de menos arrogância dos “donos da verdade” e de mais humildade para compreender os outros. Nossa missão é construir consenso em torno de um mínimo denominador comum que sustenta a civilização ocidental e suas virtudes: a democracia, a liberdade e o Estado de Direito. Esses são os pilares que criaram as condições necessárias para o progresso da humanidade. As virtudes cristãs – como a tolerância, a compaixão e o perdão – moldaram as leis, a arte, a cultura, a ética, assim como o comportamento e as crenças que deram vida e sentido aos valores e princípios que prezamos. A democracia permitiu a criação de uma sociedade livre. A liberdade nos ensinou a exercer o livre arbítrio e a conviver numa sociedade na qual o respeito à lei, à liberdade de expressão e à diversidade de crenças, raças e opiniões moldou o espírito cívico e a consciência coletiva de que o destino da nação está em nossas mãos e na qualidade das nossas escolhas.

Da união da liberdade com a democracia nasceu o capitalismo. Após as desastrosas experiências do comunismo e das diversas versões do nacionalismo econômico – que sempre empregou a mão de ferro do Estado intervencionista para adulterar as leis de mercado –, o mundo abraçou o capitalismo no final do século 20. Nos últimos 40 anos, o capitalismo produziu o maior milagre social: tirou 80% da população mundial da miséria por meio da profusão da inovação, do empreendedorismo, da criação destrutiva, da abertura dos mercados globais, da queda das barreiras protecionistas e do advento da globalização. Essas mudanças transformadoras geraram prosperidade material, econômica e social entre nações ricas e pobres, economias desenvolvidas e mercados emergentes.

Todas essas benesses que a liberdade, a democracia e o capitalismo produziram em quase meio século correm o risco de serem deformadas pelo poder maligno do populismo. Os populistas são destruidores da civilização e da civilidade. Num mundo que derrubou muros, eles querem voltar a reerguê-los. Numa era marcada pela abertura do fluxo de gente, ideias e capitais, os populistas buscam edificar as muralhas do protecionismo e do nacionalismo que sempre geraram riqueza para poucos e miséria para muitos. Numa época em que a força da imigração e da diversidade foi fundamental para fomentar a inovação, o empreendedorismo e a revigorar a economia por meio do trabalho duro e da vontade de prosperar, os populistas reinventam o nativismo nacionalista que gera preconceito, ódio e discriminação.

Portanto, a nossa missão é combater o populismo e prosseguir com as reformas graduais da democracia e do capitalismo para que continuem a produzir bons frutos para a próxima geração. O contra-ataque começa nas urnas em 2020.

* FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA (CLP), É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO PAÍS QUE SOMOS PARA O BRASIL QUE QUEREMOS’

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