2013 ainda não acabou

Ele está aí, à espera das eleições de 2018, com um nó na garganta, querendo gritar

ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA*, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 03h00

Numa quinta-feira como outra qualquer, no início do mês de junho de 2013, havia um movimento silencioso se organizando nas redes sociais na cidade de São Paulo. A razão era atuar contra o anunciado aumento da tarifa de ônibus de R$ 3,00 para R$ 3,20, por uma organização denominada Movimento Passe Livre (MPL). O que veio a acontecer nas semanas seguintes muitos hão de lembrar para sempre: as manifestações foram se repetindo dia após dia, ganharam as ruas de mais de 400 cidades pelo Brasil afora e o protesto se estendeu a outros temas, como a má qualidade dos serviços públicos, a indignação contra os políticos, a corrupção, a burocracia, o desperdício do dinheiro público e a recorrente violência policial.

No dia 20 de junho daquele ano o movimento chegou ao ápice, com milhões de jovens nas ruas das principais cidades brasileiras mostrando pela primeira vez no País a força de coordenação política das redes sociais.

Naquele dia, às 18h30, eu estava no meu escritório no 22.º andar de um prédio na Avenida Faria Lima, em São Paulo. A noite começava a cair e de longe já se ouvia o barulho da manifestação de centenas de milhares de jovens que vinham do Largo da Batata em direção à Avenida Juscelino Kubitschek para, depois, seguirem pela Marginal do Rio Pinheiros até a Ponte Estaiada. Curioso de ver de perto as faces e os slogans do movimento, arranquei a gravata, arregacei as mangas da camisa, desarrumei o cabelo e desci para a avenida com cara de velho militante para me misturar aos milhares de jovens que por ali passavam e tentar captar o espírito do protesto. Havia gente de todo tipo, da classe média e da periferia, estudantes e profissionais liberais, jovens e idosos, homens e mulheres.

Juro que fiquei bastante emocionado, como não ficava com manifestações públicas havia muito tempo. Não me parecia serem filhinhos de papai revoltados com o atraso da mesada, muito menos esquerdistas ou rebeldes sem causa, contra quem quer que fosse. O que, na verdade, mais me chamava a atenção era o caráter apartidário da manifestação e a indignação das pessoas com os governantes e os políticos em geral.

Curiosamente, não havia bandeiras de partidos políticos, nem mesmo a figura definida de líderes daquele movimento. O MPL havia sido reduzido a mero coadjuvante de algo anônimo muito maior que surgia espontaneamente como um fenômeno surpreendente na vida política nacional. E que, em minha opinião, ainda está aí à espreita, esperando 2018 chegar, com um nó na garganta e a voz embargada querendo gritar.

O fato é que 2013 ainda não terminou, mesmo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, da infindável Operação Lava Jato e da prisão de centenas de políticos, burocratas estatais e empresários corruptos.

Novas organizações da sociedade civil se estruturaram a partir do fenômeno de 2013 e estão aí, prontas para sair às ruas novamente neste ano de campanha eleitoral e de desdobramentos da Lava Jato que ainda devem ocorrer. As redes sociais estão mais ágeis e mais vivas do que nunca e um estopim qualquer poderá levá-las a reunir novos milhões em protesto por todo o Brasil.

O que essa massa de manifestantes deseja é ainda a mesma pauta inacabada de 2013, mas com uma nova situação, que é a urgência pela renovação da classe política. O repúdio aos velhos partidos e aos seus caciques parece ser unanimidade, deseja-se uma mudança radical na forma de fazer política no Brasil. Não chega a ser uma questão de idade, mas sim de atitude daqueles que agora serão candidatos aos cargos nos Poderes Executivo e Legislativo. Trata-se de ser novo não apenas no discurso, mas, principalmente, nas atitudes.

Ser novo é falar a verdade. Ser novo é zelar pelo dinheiro público com absoluta responsabilidade, é ser intolerante com a corrupção. Ser novo é ser transparente e honesto, seja nas campanhas eleitorais ou no exercício do mandato. Ser novo é ser contra o foro privilegiado para políticos e autoridades. É ser contra a reeleição para cargos no Poder Executivo. É cumprir o mandato para o qual foi eleito até o seu fim. Enfim, ser novo é isso tudo e muito mais.

O que sabemos é que o velho sistema político brasileiro está moribundo e o novo ainda não nasceu, mas as dores do parto – ainda que talvez prematuro – já se estão fazendo sentir. E logo um grito de dor lancinante ecoará pelas cidades brasileiras.

A falência de um sistema político, assim como a de uma empresa, pressupõe a imediata mudança de sua administração e a convocação de seus acionistas. No caso do atual sistema político, significa a imposição, pelas ruas, de um compromisso de convocação, no início de 2019, de uma Assembleia Constituinte independente, com mandato parcial específico para promover a tão esperada reforma política e a correção de erros históricos que todos sabemos existirem de longa data, mas até hoje fomos incapazes de corrigir.

É necessário que seja convocada uma Assembleia Constituinte independente, cujos integrantes deveriam ser eleitos diretamente logo no primeiro semestre de 2019. E, quando eleitos, ficassem impedidos de participar de novas eleições e de ocupar cargos públicos até 2026, para evitar eventuais conflitos de interesses.

Resta saber se os principais candidatos à Presidência da República este ano terão coragem de ouvir o clamor das ruas e tomar publicamente este compromisso de fazer a transição do velho para o novo regime, ou se continuarão a se enganar achando que nada mais vai acontecer, como o que se viu em 2013, um ano que ainda não terminou.

* ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA É EMPRESÁRIO E ECONOMISTA, PRESIDENTE DA KADUNA CONSULTORIA, EX-SECRETÁRIO EXECUTIVO DA CAMEX (2000-2002). ELE É AUTOR DO LIVRO ‘MEMÓRIAS DE UM TRADER’ (EDITORA THOMSON)

 

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