2014, 2018...

Já podemos especular sobre as eleições presidenciais de 2014. A introdução da reeleição, em 1997, trouxe um resultado imprevisto, mas decisivo: o presidente, governador ou prefeito em primeiro mandato é candidato nato à sua própria sucessão. Só não concorre se não quiser. Bom exemplo é a ex-governadora gaúcha Yeda Crusius, que, com magras intenções de voto, quis e conseguiu concorrer à reeleição - sem chegar sequer ao segundo turno.

Renato Janine Ribeiro, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2011 | 00h00

Esse princípio, que sagra Dilma Rousseff como candidata do campo petista em 2014, se explicitou após uma experiência do Rio Grande do Sul. Em 2002, o prefeito da capital, Tarso Genro, conseguiu derrotar nas prévias internas do PT o governador Olívio Dutra, que teoricamente poderia disputar a reeleição. Os adversários do PT usaram então este argumento: se o próprio partido não achava bom o governo de Olívio, por que os gaúchos haveriam de achar bom mais um governo do PT?

Lula, que no mesmo ano se elegeu presidente, concluiu desse episódio que o chefe do Poder Executivo em primeiro mandato seria, sempre, candidato nato à reeleição - a não ser que não o quisesse. Isso resolve a questão 2014 para o PT, salvo, claro, um grande imprevisto.

Ou seja, com a reeleição, não há fila de candidatos. Cada vez que alguém é lançado candidato com chances reais de se eleger, está sendo proposto não para um mandato de quatro anos, mas para dois mandatos sucessivos, totalizando oito anos seguidos. Esse é um ponto delicado, porque significa que, em princípio, nenhum líder petista ou de esquerda, salvo Dilma, poderá pleitear a Presidência antes de 2018.

Também significa que o próximo candidato do PSDB, se este continuar liderando a oposição, se apresentará em 2014 com a opção de não sair da Presidência antes de 2022. Aqui, não importam promessas. Dizem que José Serra teria prometido, na última eleição, cumprir um único mandato e ceder a vez em 2014 a Aécio Neves. Pode ser. Mas é uma promessa que ele não seria senhor de cumprir ou não - nem ele nem ninguém. Porque, se tivesse sido eleito e estivesse bem avaliado em 2014, por que substituí-lo? E mesmo mal avaliado, se teimasse em concorrer, quem o impediria, sem rachar o partido?

A reeleição pode criar, pois, um clima difícil dentro de cada agremiação partidária. Lembre-se que a indicação de Dilma à Presidência foi imperial: com o PT fragilizado após os escândalos de 2005, e o presidente fortalecido por sua popularidade, não havia nomes fortes alternativos ao dela, nem lideranças aptas a se opor à escolha de Lula. Note-se que no PSDB as coisas foram mais difíceis: mesmo com as pesquisas de opinião e a mídia deixando clara a preferência por Serra, muitos acusaram Aécio, antes do primeiro turno e depois do segundo, de não ter apoiado seu candidato o bastante.

Se hoje o PT sabe quem deve ser seu próximo candidato, o PSDB está entre dois favoritos, Serra e Aécio, e corre o risco de todas as tensões possíveis - justamente porque o candidato disputará oito anos, e não quatro: o nome escanteado poderá perder, para sempre, qualquer pretensão presidencial. Basta pensar que, não fosse a reeleição, em 1998 o PSDB teria emplacado qualquer nome à sucessão de FHC: Serra poderia ter sido presidente. Não fosse a reeleição, em 2006 o PT não teria candidato viável à sucessão de Lula e o PSDB emplacaria o nome que quisesse: Serra poderia ter sido eleito para a Presidência. No entanto, pode ser que Serra, o nome mais presente nos últimos 20 anos, com Lula, em todas as bolsas de apostas, termine a carreira sem nunca chegar ao Planalto. Artes da reeleição...

Mas se por ora a bola está no campo do PSDB, para o PT já se começa a anunciar a eleição de 2018. Com efeito, entre os nomes hoje mais fortes politicamente no PT, os presidentes Lula e Dilma, a senadora Marta Suplicy e o governador Tarso Genro pertencem à mesma geração, nascidos que foram entre 1945 e 1947. O governador Jaques Wagner é de 1951. Ora, seria provável um único partido eleger três presidentes seguidos na mesma faixa etária, ainda mais quando cada mandato tende a ser de oito anos? Lula elegeu-se pela primeira vez com menos de 60 anos; qualquer dos líderes que mencionei terá, em 2018, em torno de 70. O Brasil seria governado durante um quarto de século por pessoas do mesmo partido nascidas na mesma meia década, aquela que os americanos chamam dos baby boomers? Pouco provável, ainda que quase nada, em política, seja impossível.

De todo modo, o PT precisa tornar viáveis novos nomes para suas campanhas. Finalmente bateu a conta do desastre de 2005, que ceifou Dirceu, Genoino e outras lideranças históricas: o PT precisa renovar-se amplamente. Mas candidatos à Presidência precisam da vitrine que lhes dá um governo de Estado ou um Ministério importantes. (A única exceção a essa exigência é Lula, nunca ministro, jamais governador; mas ele foi e é, rigorosamente, excepcional.)

Portanto, no Ministério de seu primeiro mandato (que, a bem dizer, pode ser o único), Dilma terá de preparar nomes que não rivalizem com ela em 2014, mas componham a nova geração que se possa credenciar para 2018. Com quase 20 ministros pertencendo ao PT, vários deles jovens, o que na política quer dizer com 50 anos ou menos, é provável que entre eles - e nos governos estaduais - se estejam formando os presidenciáveis petistas do futuro.

Mas é claro que tudo isso pode mudar. Pressuponho, aqui, que a política brasileira continue se jogando entre times liderados pelo PT e pelo PSDB. E se o PSDB não souber construir uma alternativa ao PT? E se o PT se esvaziar? E se surgir uma terceira via, que hoje parece chamar-se desenvolvimento sustentável e não é relevante para nenhum dos dois grandes partidos? E se a onda simbolizada por Marina Silva se fortalecer, com ela ou outro nome? O fascinante, na política, é que ela tem um forte elemento imprevisível.

PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP

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