A advertência da indústria

Decepcionante por vários motivos, o resultado da produção industrial em agosto contém sérias advertências aos que já anteviam o início da recuperação da economia

O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2016 | 03h07

Decepcionante por vários motivos, o resultado da produção industrial em agosto contém sérias advertências aos que já anteviam o início da recuperação da economia: pelo menos no caso da indústria, talvez o fundo do poço ainda não tenha sido alcançado; e, se foi, a saída será mais lenta do que se previa. A queda de 3,8% da produção industrial em agosto na comparação com julho – aferida pela Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – não apenas foi bem mais acentuada do que a projetada por economistas do setor privado, como interrompe uma sequência de cinco altas mensais consecutivas. A quebra da produção sugere que tinha pouca consistência a trajetória ascendente observada nos meses anteriores. Era essa trajetória que estimulava avaliações otimistas sobre a recuperação da indústria, o setor mais duramente atingido pela crise que assola o País desde meados de 2014. Fortemente dependente das encomendas internas, a produção industrial tem sua evolução condicionada à recuperação do poder de compra da população, e este continua em queda.

A queda registrada em agosto é a mais intensa desde janeiro de 2012, estendeu-se pela grande maioria dos setores pesquisados (21 dos 24) e alcançou 5,2% na comparação com o resultado de um ano antes. É a 30.ª queda seguida na comparação com os dados do mesmo mês do ano anterior.

Dois setores afetaram de maneira mais aguda o desempenho da indústria em agosto: a indústria automobilística e a de alimentos. A produção de veículos caiu 10,4% de julho para agosto e a de alimentos, 8,0%. A principal causa apontada para a queda da produção de veículos foi a paralisação de uma fábrica em São Bernardo do Campo, por problemas com fornecedores de autopeças; o responsável pela redução da produção de alimentos foi o clima, que prejudicou a indústria de açúcar.

O peso das montadoras no desempenho de todo o setor industrial – sua atividade influi na produção de bens intermediários e de componentes – acabou afetando fortemente o resultado de agosto.

O fato de problemas episódicos terem tido grande influência no desempenho da indústria pode sugerir que, com sua superação, os resultados dos meses seguintes serão melhores. De fato, o mau desempenho da indústria automobilística em agosto tende a se dissipar daqui até o fim do ano, o que, se ocorrer, contribuirá para melhorar os resultados de todo o setor secundário.

As vendas de autos, como de outros bens duráveis de valor mais alto, no entanto, dependem da oferta e do custo do financiamento e da confiança do consumidor. Nenhum desses fatores determinantes das vendas desses bens está presente na economia. A crise tornou as instituições financeiras muito mais rigorosas e seletivas na concessão de empréstimos e, por causa da persistência da inflação muito acima da meta, a política monetária conduzida pelo Banco Central continua restritiva. Em resumo, o crédito é escasso e caro.

Quanto a emprego e renda, as mais recentes pesquisas do IBGE mostram o aumento do número de trabalhadores à procura de ocupação – são mais de 12 milhões –, enquanto continuam a cair o rendimento real dos que estão empregados e a massa salarial real.

Um sinal alentador foi dado pela indústria de bens de capital, cuja produção avançou 0,4% em agosto. Isso poderia indicar a recuperação dos investimentos indispensáveis para assegurar a retomada do crescimento. É preciso avaliar esse resultado com cautela. O aumento se dá sobre uma base muito deprimida (a indústria de máquinas e equipamentos ainda opera num nível 41,6% inferior ao do pico registrado em setembro de 2013). Além disso, esse aumento parece insuficiente para impulsionar a formação bruta de capital fixo – medida dos investimentos na composição do Produto Interno Bruto (PIB) –, integrada também pelas aplicações na construção civil.

Tudo isso reforça o cenário de nova redução do PIB no terceiro trimestre.

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