A advertência da Moody's

O Brasil vai mal, decepcionou até quem esperava um fraco desempenho econômico em 2014 e sua nota poderá ser rebaixada, em alguns meses, se nada sério for feito para consertar os indicadores mais importantes. Esse é, em síntese, o recado embutido na decisão da Moody's, uma das mais importantes agências de classificação de risco, de mudar de estável para negativa a perspectiva de crédito do País. Talvez ninguém esperasse um anúncio desse tipo, neste momento, a menos de um mês da eleição, mas o mercado reagiu com rapidez e papéis da dívida brasileira logo se desvalorizaram. Se houve surpresa, foi só porque as atenções se concentravam no tabuleiro onde se misturam as peças da política e das finanças. Mas a Moody's havia anunciado uma reavaliação do quadro brasileiro no meio do ano. Depois de um semestre de recessão e de evidente piora das contas públicas, ninguém deveria surpreender-se com uma opinião desfavorável.

O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2014 | 02h05

A Moody's tem sido até moderada em suas avaliações. Em março, outra grande agência, a Standard & Poor's, baixou de BBB para BBB- a nota de crédito soberano do Brasil e, em seguida, aplicou o mesmo critério a 13 instituições financeiras públicas e privadas e também à Petrobrás, à Eletrobrás e a algumas grandes empresas particulares. Em janeiro, a Moody's havia anunciado a manutenção da nota de risco do País e reafirmado como estável a perspectiva de crédito. Em setembro, essa perspectiva ainda era positiva, isto é, com possibilidade de melhora. A mudança já envolveu uma avaliação desfavorável, mas, de toda forma, a nota (Baa2) havia sido preservada.

A decisão divulgada em janeiro veio acompanhada de uma advertência. Para avaliar a situação do País, alguns meses depois, a agência levaria em conta a evolução das contas públicas (e do endividamento, portanto), assim como o crescimento econômico. O governo, explicou então o executivo Mauro Leos, vice-presidente da Moody's, teria de se esforçar especialmente para conter os gastos primários, isto é, as despesas de operação do setor público e de investimentos. Na ocasião, ele saudou como "positiva" a promessa do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de evitar a contabilidade criativa. Também avaliou positivamente a promessa do governo de reduzir os repasses do Tesouro para bancos oficiais.

A classificação do crédito brasileiro e de sua perspectiva seria mantida, avisou o especialista, se o resultado fiscal e o crescimento econômico coincidissem, aproximadamente, com as projeções da agência. Segundo essas estimativas, o Produto Interno Bruto (PIB) deveria crescer uns 2% neste ano e o superávit primário, destinado ao pagamento dos juros, deveria atingir uns 2,1% do PIB. Eram parâmetros pouco exigentes.

Nenhuma dessas condições foi cumprida. No primeiro semestre, a economia encolheu. Os dados oficiais confirmaram a recessão técnica - redução do PIB durante dois trimestres consecutivos. Os dados de julho e agosto parecem um pouco melhores, mas o mercado financeiro projeta para o ano um crescimento inferior a 1%. A mediana das projeções coletadas no fim da semana passada ficou em 0,48%. A inflação acumulada em 12 meses continua na vizinhança de 6,5%, limite da margem de tolerância. As contas públicas estão longe da meta, mesmo com a incorporação de dividendos das estatais e uma nova rodada de arrecadação proporcionada pela renegociação de dívidas tributárias.

Apesar disso, a Moody's apenas mudou de estável para negativa a perspectiva do Brasil e manteve a nota de risco. A mudança da perspectiva, no entanto, já tem potencial para influenciar o mercado e elevar o custo das captações brasileiras. Já houve algum impacto, mas só nos próximos dias o efeito será conhecido mais claramente. Afinal, a avaliação anunciada pela Moody's apenas confirmou, em tom até moderado, problemas bem conhecidos.

Ninguém espera um surto de seriedade na política econômica neste fim de ano. Mas todos os candidatos à Presidência dispõem de mais um aviso. Sem um claro compromisso de mudanças, conseguir dinheiro poderá ficar muito complicado.

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