A alegria do amor

A palavra muito esperada do papa Francisco sobre a família apareceu agora na exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia (A Alegria do Amor). As duas assembleias-gerais do Sínodo dos Bispos de 2014 e 2015 foram ocasião para uma vasta percepção da situação da família e das questões que a envolvem em nossos dias.

DOM ODILO P. SCHERER*, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2016 | 03h00

O relatório final da primeira assembleia do Sínodo, de 2014, retratou os desafios atuais da família para o trabalho evangelizador da Igreja Católica. Constatou-se que a família tradicional enfrenta a pressão de muitos fatores novos, que questionam o seu papel social e humano tradicional e põem em dúvida até os fundamentos da existência e da função da família na vida das pessoas e da sociedade. Pode até mesmo ter ficado a impressão de que a instituição família já pertence ao passado, superada por novos estilos de vida e de relacionamentos afetivos e sociais que a tornaram irrelevante ou mesmo prejudicial às aspirações de bem e felicidade das pessoas. A julgar pelo debate público que se produziu, parecia que as questões mais relevantes com relação à família eram a possibilidade da comunhão eucarística aos casais em segunda união e a legitimação das uniões de pessoas do mesmo sexo...

Inegavelmente, a família enfrenta muitas dificuldades atualmente, quer pelas mudanças culturais que põem em discussão e crise certos padrões de casamento e família; quer ainda porque a família e a instituição do casamento não recebem os necessários apreço e suporte das diversas instâncias de poder da sociedade, mesmo sabendo que esta tem na família a sua base.

A questão mais preocupante, contudo, é a perda do apreço pelo casamento e pela família, que são relegados aos assuntos da vida privada, como se nessas instituições não estivesse envolvido um bem social e público. Mais e mais crescem as estatísticas das uniões livres, sem nenhum papel passado; chega-se a ver no matrimônio e na família uma carga pesada e um risco às pretensões de felicidade individual. Seria a família descartável porque ela não consegue mais cumprir bem a sua missão e o que a sociedade espera dela? Dá para imaginar uma sociedade futura sem casamento nem família? E se isso acontecesse, seria um ganho ou uma perda para a civilização?

A assembleia do Sínodo de 2015 tratou justamente da vocação e da missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo. A abordagem foi positiva e reconheceu que o papel humanizador da família é inconteste e insubstituível. Ela continua sendo fundamental para a pessoa, a comunidade humana e a grande sociedade. Sem ela existiriam apenas indivíduos atomizados e fragilizados e não se poderia imaginar a continuidade da civilização humana. Mesmo se parece insignificante, o papel da família na transmissão dos valores humanos e sociais é incomensurável; e nenhuma outra instância da sociedade civil ou do Estado conseguiria substituir esse papel humilde, mas fundamental da família.

Chama a atenção o título da nova exortação apostólica do papa sobre o casamento e a família: Amoris Laetitia (A Alegria do Amor). O papa Francisco começa a sua longa mensagem com palavras que traduzem otimismo e apreço pelo casamento e as realidades familiares. O amor humano, expressado e vivido no casamento e na família, é uma realidade boa, fonte de alegria e felicidade. Não há só aflições e problemas; nem tudo é peso e barreira à felicidade dos indivíduos. O casamento e a família são realidades que podem proporcionar grande alegria e realização humana, mesmo no meio de dores e sacrifícios, que acompanham inevitavelmente qualquer escolha e decisão na vida.

Francisco não deixa de abordar os principais aspectos permanentes do ensino da Igreja Católica sobre o matrimônio e a família; fala do desígnio de Deus sobre o homem e a mulher, do valor sacramental e significativo da aliança matrimonial, dos deveres recíprocos dos cônjuges, dos pais em relação aos filhos, das relações intrafamiliares. Não fica diluído o que a Igreja sempre ensinou sobre a indissolubilidade e a fidelidade no matrimônio. Não se passa por cima das situações de conflito que, tantas vezes, surgem no casamento e nas relações familiares. Tudo isso é visto com realismo e senso de humanidade.

Mas não há fixação nas incontáveis lamúrias... O papa apresenta o valor e a beleza do casamento e da família, que precisam ser descobertos e apreciados. Fala da necessidade de preparar bem o casamento, porque diz respeito a um projeto de vida a dois que precisa ser levado muito a sério desde antes do casamento e acompanhado durante a vida matrimonial, pois não há nada que dure e permaneça atraente se não for cuidadosamente cultivado e zelado. Abre as portas aos casais que passam ou passaram por dificuldades, para que possam estar plenamente integrados na vida eclesial. E exorta toda a Igreja para um novo esforço no acompanhamento das famílias.

Francisco recorda que o casamento é mais do que um simples contrato sobre interesses de duas pessoas, eis que nele estão envolvidas mais partes, como os filhos e a própria sociedade. Mas também lembra que a família é uma reserva inesgotável de amor e afeto sincero, de relações verdadeiramente gratuitas, de generosidade impagável, de interesse pela pessoa, como não existe igual em outras instâncias do convívio social; nela não há lugar para o descarte, mas as pessoas expostas a fragilidades e situações de risco são acolhidas e amadas. A família é o espaço onde se nasce, cresce, vive e morre; onde a pessoa humana percebe seu sentido e seu valor.

O novo documento do papa Francisco é uma contribuição importante para recuperar o apreço por este verdadeiro “patrimônio da humanidade” que é a família.

*DOM ODILO P. SCHERER É CARDEAL-ARCEBISPODE SÃO PAULO

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