A ameaça de Assad

Do ângulo das suas repercussões internacionais, o conflito na Síria mudou de figura. Com a intimidatória admissão, por um porta-voz da chancelaria de Damasco, de que o país tem armas químicas, que poderão ser usadas exclusivamente "em caso de agressão externa", o ditador Bashar Assad desafiou a ONU e a Liga Árabe a irem além das condenações até aqui inócuas à indiscriminada repressão da insurgência contra o regime. O que começou há 16 meses como um movimento por liberdade e democracia, na esteira da Primavera Árabe, transformou-se numa guerra civil, com um saldo já de 19 mil mortos, a maioria não combatentes.

O Estado de S.Paulo

25 Julho 2012 | 03h11

Em nenhum momento Assad aceitou negociar com os rebeldes, muito menos considerar uma proposta de transição política que, ao fim e ao cabo, culminaria com a convocação de eleições abertas, à maneira da Tunísia, Egito e Líbia. Tampouco fez a sua parte no plano de cessar-fogo do ex-secretário da ONU Kofi Annan, com o qual fingiu concordar. Enquanto isso, no Conselho de Segurança, a Rússia e a China vetaram três tentativas de impor sanções a Damasco para deter os massacres na Síria. A mais recente delas, na semana passada, deixava entreaberta a porta para uma intervenção militar no país, nos moldes daquela que foi decisiva para a queda de Muamar Kadafi na Líbia.

Ao mesmo tempo, diante dos rumores de que Assad pretenderia transferir para o Hezbollah, no Líbano, os seus estoques de armas químicas, em caso de novos avanços do Exército Livre da Síria, Israel advertiu que não esperaria o repasse acontecer. Nesse clima, Damasco rompeu uma regra não escrita do princípio da dissuasão nas relações internacionais. Este consiste em um país fazer crer, sem proclamar, que dispõe de arsenais de destruição em massa aos quais recorrerá se atacado. Israel, por exemplo, nunca desmentiu nem confirmou ter a bomba atômica - diz apenas que jamais será o primeiro a usar uma arma nuclear no Oriente Médio. Na região, só o então ditador Saddam Hussein fez menção de ter armas "não convencionais". Jamais foram achadas.

Ninguém ignorava que a Síria, decerto com ajuda russa ou iraniana, acumulara estoques de gases sarin, mostarda e VX, que têm efeitos devastadores no organismo quando inalados, prontos para montagem em bombas, mísseis e foguetes de artilharia. O país - assim como Israel e seis outros - não aderiu à convenção, vigente desde 1997, para o banimento dessas armas que tiveram a sua infame estreia na 1.ª Guerra Mundial. Segundo uma fonte diplomática confidenciou ao New York Times, há poucas semanas o próprio Assad teria dito ao ex-secretário Kofi Annan que as substâncias estavam guardadas em lugar seguro, mas não tinham ainda sido combinadas para uso militar.

Regimes párias como o dele não alardeiam os seus recursos de destruição massiva pela simples razão de que, ao fazê-lo, praticamente obrigam a comunidade internacional que já lhe é hostil a buscar uma resposta além das retaliações verbais. O Irã, por exemplo, apregoa o caráter pacífico do seu programa nuclear. O anúncio sírio desloca para o exterior a principal frente da guerra civil. O vaivém dos combates, ora com o governo retomando o controle de bairros da capital onde as forças rebeldes haviam fincado pé, ora com as suas primeiras incursões de vulto a Alepo, a mais populosa cidade síria e principal centro econômico do país, cede vez na ordem do dia aos efeitos do misto de confissão e ameaça emanado de Damasco anteontem.

"O mundo está olhando", disse o presidente americano, Barack Obama. Foi uma advertência, mas pode ser também a constatação de que as atenções internacionais passaram a se voltar para o que fará doravante o grupo dos "Amigos da Síria", que inclui os Estados Unidos, a União Europeia e a Liga Árabe - e o que fará Moscou, o maior amigo de Assad. Nunca, afinal, um governo, além de tudo em guerra com a sua nação, avisou que recorrerá à mais cruel das armas, aquém apenas da bomba atômica, na hipótese de uma "agressão externa".

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