A ameaça de choques externos

O novo presidente terá de lidar com investidores inseguros e tensões comerciais

O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2018 | 03h00

Cuidar dos problemas internos já será um enorme desafio para o novo presidente, mas ele ainda terá de levar em conta um quadro internacional pouco amigável, com juros em alta, investidores inseguros e tensões comerciais. A piora das condições financeiras será um efeito inevitável do aperto monetário nos Estados Unidos. Depois de muitos anos de dinheiro farto e barato nos principais centros financeiros, o jogo vem mudando e entre os perdedores estão alguns grandes países emergentes. Argentina e Turquia são os mais destacados. O aperto continuará, apesar dos protestos do presidente Donald Trump contra o aumento de juros. A situação poderá piorar quando os dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) decidirem acompanhar seus colegas americanos e tornarem o crédito mais caro. Não é um risco imediato, mas nenhum gestor prudente, especialmente um chefe de governo, deveria menosprezar as mudanças esperadas na gestão do euro, a segunda moeda mais importante do mundo.

Mudanças no dólar são suficientes, neste momento, para afetar as condições do crédito internacional e para mexer nos fluxos de capitais. Essas mudanças desviam muito dinheiro dos mercados emergentes para aplicações consideradas mais seguras, com destaque para os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Novas altas dos juros americanos estão prometidas claramente pelo Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla original), condutor da política monetária nos Estados Unidos. O comitê é formado por dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

No último aumento, anunciado em 26 de setembro, a taxa básica foi elevada para a faixa de 2% a 2,25% ao ano. Foi a oitava alta de uma série iniciada em dezembro de 2015, quando os juros saíram do intervalo de zero a 0,25% para o de 0,25% a 0,50% ao ano. A taxa poderá subir mais uma vez até o fim do ano, segundo alguns analistas financeiros. Mesmo sem esse aumento as condições de crédito serão mais apertadas no próximo ano, porque haverá novas altas da taxa básica em 2019. Essa perspectiva está bem definida na ata da reunião de setembro, publicada pelo Fed na quarta-feira passada.

A elevação gradual dos juros é compatível, segundo a ata, com a continuada recuperação da economia americana e do emprego no próximo ano. A alta dos preços ao consumidor já está batendo na meta de 2% ao ano e o risco de um recuo da inflação é neutralizado pela firme criação de empregos e pela expansão dos negócios.

O desemprego já caiu para 3,9% e a atividade permanece vigorosa, com elevação do consumo privado e do investimento empresarial. A orientação dominante no Fomc, por enquanto, é favorável à manutenção de aumentos graduais dos juros. Com esse gradualismo deverá ser possível, segundo a ata, evitar dois perigos simétricos - o de frear o crescimento econômico e o de permitir uma inflação acima da meta.

A orientação, no entanto, poderá mudar. O crescimento econômico tem sido mais forte que o esperado, segundo participantes da reunião. A ata menciona também a inclinação de alguns membros a favor de um aperto monetário mais forte para prevenir o risco de uma inflação acima da meta de 2% ao ano. Todas essas questões serão revistas nas próximas sessões do comitê. 

A piora das condições financeiras tem sido tema frequente nos debates internacionais. Depois de anos de juros muito baixos, as condições do mercado vêm mudando. O nervosismo tenderá a aumentar, assim como a aversão ao risco. O processo envolverá instabilidade financeira e cambial, como já ocorreu neste ano, e isso complicará as decisões de negócios e, de modo especial, a condução das políticas econômicas.

Vários especialistas, incluído o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, chamaram a atenção para esses perigos na recente reunião do Fundo Monetário Internacional. Esse conjunto de riscos é mais um forte motivo para apressar ajustes e reformas e tornar o Brasil menos vulnerável a choques financeiros originários do mercado externo.

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