A ameaça do crime organizado

A onda de violência que tomou conta da região metropolitana de Florianópolis e de outras cidades do interior de Santa Catarina nos últimos dias é um problema que transcende o Estado. Ele mostra que a violência não poupa nenhum Estado, rico ou pobre, e que nem mesmo os presídios federais escapam de ser controlados por organizações criminosas. Construídos para serem de "segurança máxima" e garantir o isolamento de presos de alta periculosidade de vários Estados, impedindo que continuem a comandar o crime de trás das grades, eles estão se revelando igualmente vulneráveis.

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2014 | 02h05

Desde o dia 26, a Polícia Militar (PM) catarinense já registrou mais de 50 ocorrências em 21 cidades. A violência, que começou na capital, se espalhou pelo interior, depois que foi reforçada a segurança em Florianópolis e os ônibus deixaram de circular durante a madrugada. As ocorrências vão de incêndio de ônibus a atentados contra casas de policiais e bases da polícia. Não são apenas os alvos dessas ações que mostram a decisão dos bandidos de desafiar diretamente o Estado. Sua audácia parece não ter limites, pois na quinta-feira atacaram também uma guarita da sede do governo, atingida por dez tiros.

Como acontece em outros Estados - e o melhor exemplo é São Paulo, com o Primeiro Comando da Capital (PCC) -, o foco da crise em Santa Catarina está também nos presídios. Os presos reclamam das condições do sistema penitenciário e, em carta enviada por um grupo deles à juíza Alexandra Lorenzi da Silva, da Vara de Execuções Penais, pedem melhorias neles. A magistrada prometeu a realização de vistoria nas próximas semanas. Mas o Departamento Estadual de Administração Prisional (Deap) contestou a autenticidade da carta.

Alega ele que na Penitenciária de São Pedro de Alcântara os presos não têm acesso a computadores, equipamento usado para a elaboração da carta, e, portanto, ela não foi redigida ali. Além disso, "mais da metade das assinaturas está agrupada em sequência de 50 signatários, grafada com a mesma caligrafia". Isso demonstraria a sintonia dos presos com seus cúmplices de fora dos presídios que, devidamente orientados, seriam os que na verdade redigiram e divulgaram a carta.

O aspecto mais grave da perfeita coordenação dos vários grupos criminosos, porém, foi apontado pela Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic). Segundo ela, a ordem para a onda de atentados partiu de dentro do presídio de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde estão, desde 2012, os principais líderes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC). Eles foram para lá transferidos depois de outra onda de atentados semelhantes aos de agora, cometidos em 2012. A ela se seguiu uma outra em 2013, sendo a de agora, portanto, a terceira.

Duas conclusões se impõem a partir desses fatos. A primeira, que era evidente desde 2012 e agora fica apenas reforçada, é que mesmo num Estado rico e bem organizado como Santa Catarina a violência e a força do crime organizado, dentro e fora dos presídios, não são muito diferentes daquelas que se observam no Maranhão, por exemplo, com seu tristemente famoso Complexo Penitenciário de Pedrinhas e os incêndios de ônibus em São Luís e em outras cidades. Sem falar que a organização e a maneira de agir do PGC em quase nada diferem das do PCC paulista e de outros grupos cariocas.

A segunda é que esse episódio compromete seriamente a reputação de segurança máxima dos presídios federais. Se outros episódios semelhantes se repetirem, eles não mais merecerão esse nome. E, se não houver onde se garantir o isolamento efetivo das lideranças das organizações que controlam os presídios, e de dentro deles comandam o crime aqui fora, a situação em todos os Estados só tende a se agravar.

Santa Catarina e Maranhão são apenas os Estados mais em evidência neste momento. O que se passa ali - e que aconteceu em São Paulo em 2006 - pode se repetir em outros Estados a qualquer momento, se os governos estaduais e federal não unirem seus esforços, acima de diferenças partidárias, para enfrentar o problema.

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