A aposta no consumo

Consumidores andam otimistas e, se depender apenas de sua boa disposição, a economia deverá recuperar-se nos próximos meses. Segundo a última pesquisa CNI/Ibope, 53% dos entrevistados em junho pretendem manter os hábitos de compras. Eram 45% em março e 46% em dezembro. Esses dados são compatíveis, à primeira vista, com o balanço do primeiro trimestre recém-divulgado pelo IBGE. De janeiro a março, o consumo privado foi 0,7% maior que nos últimos três meses do ano passado. Esse foi o principal fator de sustentação da atividade econômica. Se o PIB caiu apenas 0,8%, bem menos que o estimado pela maior parte dos analistas, foi em primeiro lugar graças ao nível de gastos mantido pelas famílias. Mas terão os consumidores, daqui em diante, fôlego suficiente para continuar comprando como até agora? Em recessões, a queda do emprego é muito mais veloz que a recuperação. Durante a crise, a produção média dos empregados tende a aumentar e as empresas conseguem funcionar por longo tempo com pessoal menos numeroso. Só quando a reativação já se firmou e a demanda cresce de forma inequívoca os empregadores voltam a recrutar trabalhadores. Com pequenas variações, essa tem sido a evolução observada na maior parte das crises. No Brasil, o otimismo exibido pelos consumidores, segundo a pesquisa CNI/Ibope, parece indicar uma história diferente. No entanto, as últimas informações sobre emprego e salário, provenientes de fontes diversas, justificam alguma inquietação. Em abril, o emprego industrial caiu pela sexta vez consecutiva e foi 1,1% menor que em março, de acordo com pesquisa nacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Desde outubro, a queda acumulada chegou a 5,3%. A massa real de salários acompanhou esse movimento. Diminuiu 2,7% de março para abril. Nos primeiros quatro meses, foi 0,8% inferior à de igual período do ano passado. A pesquisa industrial mensal do IBGE, apesar de algumas diferenças de cobertura e de metodologia, também aponta uma piora das condições de emprego e de salário. De março para abril, o pessoal ocupado e assalariado diminuiu 0,7% e a folha de pagamento real encolheu 0,2%, conservando, no entanto, um aumento de 3,7% no acumulado de 12 meses. De toda forma, a tendência indicada em todos os números é negativa. Na pesquisa de emprego nas seis maiores áreas metropolitanas, o IBGE registrou estabilidade na taxa de desocupação (de 9% para 8,9%) e queda de 0,7% no rendimento médio habitual das pessoas ocupadas (assalariadas e trabalhadoras por conta própria). A massa de rendimento real, portanto, deve ter diminuído ligeiramente. Os números do varejo de março, também de acordo com o IBGE, indicaram certa acomodação do consumo. O volume de vendas do comércio foi 0,3% maior que o de fevereiro. Nos primeiros dois meses do ano, havia aumentado 1,9% e 1,5%. Houve, portanto, uma perda de impulso. A mesma tendência foi observada no comércio de veículos, motos, partes e peças: aumento de 11,7% em janeiro, de 4,5% em fevereiro e de 3,9% em março. O incentivo fiscal sem dúvida ajudou a indústria automobilística a manter um nível de atividade razoável, mas o efeito foi decrescente. A redução do imposto foi prorrogada por mais três meses. Graças a isso, as montadoras puderam produzir 1,19 milhão de veículos de janeiro a maio - mas o total, apesar de tudo, foi 14,2% inferior ao de um ano antes. Em maio, o setor empregava 120,4 mil trabalhadores, 4,82% menos que um ano antes. Mas esse número foi menor, também, que o total de empregados em janeiro, 125,9 mil. Agora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a prorrogação do incentivo - a redução do IPI sobre automóveis.De toda forma, a principal contribuição do governo para a reativação deverá consistir, mesmo, na concessão de incentivos fiscais a consumidores e a empresas. O gasto direto no investimento público poderia ser eficaz para a criação de empregos, mas para isso o governo teria de se mostrar muito mais competente na execução de projetos. Até 2 de junho, o Tesouro pagou apenas 2,92% dos R$ 50,13 bilhões orçados para investimento em 2009. Isso não é ritmo de política antirrecessão.

, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

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