A Argentina e seus fantasmas

A eficácia da política do Banco Central argentino vem sendo colocada em questão

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 03h00

Com um conjunto de medidas fortes anunciadas na sexta-feira passada para conter a disparada do dólar – que incluiu a alta dos juros para 40% e a redução da meta de déficit fiscal para 2018 –, as autoridades econômicas da Argentina conseguiram acalmar os investidores e provocar a queda da cotação da moeda americana. É uma vitória modesta e que, longe de configurar o início da superação da crise de confiança que cerca o governo do presidente Mauricio Macri, pode ser fugaz.

Desde 28 de dezembro do ano passado, quando o governo anunciou o afrouxamento da meta de inflação para 2018 de 10% para 15%, a eficácia da política do Banco Central argentino vem sendo colocada em questão. As ações anunciadas na semana passada têm o objetivo, entre outros, de restaurar a confiança na capacidade do Banco Central de conter a inflação. Mas, a despeito dos resultados iniciais positivos alcançados pelo governo, o fantasma que, de tempos em tempos, assombra os argentinos – combinação de inflação alta e grande volatilidade da taxa de câmbio, que resulta em desemprego e outros graves problemas econômicos – parece ter ressurgido.

Trata-se da primeira crise do governo Macri, no poder há dois anos. Até há pouco, Macri desfrutava de forte apoio do meio empresarial argentino e dos investidores em geral por ter concentrado sua ação no desmonte das políticas populistas contrárias aos investimentos privados implementadas pelo kirchnerismo, que governou a Argentina de 2003 a 2015, primeiro com Néstor Kirchner e depois com sua esposa, Cristina.

Mas a combinação de uma decisão considerada equivocada no fim do ano passado, que sinalizou o afrouxamento da política anti-inflacionária, com a valorização do dólar no mercado internacional, diante dos sinais de alta dos juros nos Estados Unidos, resultou numa forte saída de capitais da Argentina e na consequente valorização da moeda americana. A criação de um imposto sobre ganhos financeiros de investidores estrangeiros estimulou esses movimentos.

A alta dos juros argentinos em 6,75 pontos em um único dia (e de 12,75 pontos em cinco dias) acalmou o mercado e a cotação do dólar caiu 2%. A redução da meta de déficit primário – isto é, sem o cômputo dos juros da dívida pública –, de 3,2% para 2,7%, também contribuiu para a melhora do ambiente entre os investidores. Mesmo assim, no ano, o dólar acumula alta de quase 20% em relação ao peso. E a manutenção dos juros nos níveis para os quais foram elevados na semana passada é considerada improvável.

Do ponto de vista das contas externas, a Argentina é considerada um dos países mais vulneráveis às turbulências internacionais entre as economias emergentes. O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos da Argentina está próximo de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos mais altos entre os países emergentes. O do Brasil, por exemplo, está em torno de 0,5% do PIB e o dos países da América Latina, em cerca de 2%.

Com a crise mais grave enfrentada pelo governo Macri e as medidas anunciadas para domá-la, os economistas argentinos já colocam em séria dúvida a projeção oficial de crescimento de 3,5% neste ano. Dante Sica, da consultoria Abeceb, por exemplo, já havia revisto sua estimativa de crescimento do PIB argentino em 2018 para 3,2%. Diante dos novos fatos, Sica diz que pode reduzir sua estimativa para 2,3%.

Durante a crise financeira dos países em desenvolvimento, nas décadas de 1980 e 1990, com frequência se disse que os problemas da Argentina se repetiriam no Brasil. O quadro é muito diferente hoje. Embora o País enfrente séria crise fiscal, a inflação brasileira é de menos de 4% ao ano (a da Argentina está em 25%), a situação do balanço de pagamentos é relativamente tranquila, as reservas internacionais estão num nível elevado. Mas a Argentina é o principal destino das exportações brasileiras de produtos industrializados, especialmente automóveis. Uma crise mais séria lá afetará a indústria aqui. 

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