A baderna na Ceagesp

O protesto, na sexta-feira, dos caminhoneiros que transportam produtos agrícolas para a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, Ceagesp, terceiro maior entreposto de abastecimento do mundo, deixou um rastro de destruição: cinco feridos, um deles baleado, veículos e prédios incendiados e cabines de cobrança depredadas. É óbvio que a causa do confronto entre manifestantes contra a cobrança de estacionamento e seguranças do estabelecimento não justifica toda essa violência, também resultado da demora de duas horas da Polícia Militar (PM) para restabelecer a ordem pública no local: o tumulto começou às 10 horas, a PM garante ter chegado 20 minutos após o chamado, mas o fato é que a tropa só começou a dispersar manifestantes com bombas de gás depois do meio-dia. Em consequência disso, a Ceagesp funcionou parcialmente no fim de semana, o que prejudicou os negócios dos comerciantes e a clientela habituada a fazer feira no "Varejão".

O Estado de S.Paulo

18 Março 2014 | 02h05

O presidente da companhia, Mário Maurici de Lima, suspeita da ação de "infiltrados" no protesto dos caminhoneiros. "Não eram carregadores nem motoristas. Foi uma ação orquestrada, de bandidos, não sei a mando de quem", disse. Não é improvável que ele tenha razão. Ultimamente protestos tidos como legítimos e democráticos têm servido, de fato, de pretexto para atos de vandalismo e até de banditismo acobertados por reivindicações, sejam elas justas e relevantes ou não. A participação de estranhos ao comércio e ao transporte de frutas, verduras, hortaliças e outros produtos comercializados no local é evidenciada pelo fato de que quem realmente tinha razões para protestar contra a cobrança do estacionamento foi o primeiro e maior prejudicado pelo quebra-quebra. Logo depois da confusão de sexta-feira, os boxes de venda de alimentos se esvaziaram e os poucos vendedores que neles ficaram tiveram de cuidar de proteger seus produtos em meio ao corre-corre, bombas e até disparos de arma de fogo. Um desses feriu no abdome Wellington Washington dos Santos, que trabalha no conserto de caixas de madeira. O prejuízo dos comerciantes foi considerável.

Ocorre que não há por que uma empresa pública federal, ou seja, de propriedade dos contribuintes, cobrar de caminhoneiros que transportam gêneros de primeira necessidade para uma central de abastecimento uma taxa, seja qual for, para carregá-los ou descarregá-los. Isso não caracteriza estacionamento e, portanto, nada haveria a cobrar.

Como ocorre com várias empresas, a Ceagesp, responsável pelo armazenamento de produtos agrícolas na maior cidade do País, terceiriza seus serviços. A C3V foi contratada pela Ceagesp para cuidar de seu sistema viário. César Vaiano, diretor dessa concessionária, informou que a implantação da cobrança começou a ser informada aos comerciantes, caminhoneiros e frequentadores no primeiro semestre do ano passado. Sim, e daí? O fato de ter sido avisada previamente não torna automaticamente razoável a cobrança do uso do estacionamento do local. A companhia alega que as taxas são irrisórias e que os lucros delas advindos são necessários para melhorar o controle do espaço. Ou seja, um argumento enfraquece o outro: se a quantia cobrada dos caminhões, que vai de R$ 4 a R$ 60, dependendo do tempo de permanência e da quantidade de eixos, é suficiente para atender às necessidades que ela tem para melhorar significativamente a qualidade de seu serviço, não pode ser desprezível para a movimentação financeira de quem vive de vender e transportar os produtos distribuídos pela Ceagesp, serviço este que tem sido prestado sem necessidade dessa renda nos 45 anos de existência da companhia, federalizada há 18 anos. Os permissionários dizem que nunca foram consultados a respeito. Se fossem, teriam discordado. Segundo o advogado do sindicato da categoria, o Sincaesp, Rafael Cajueiro, a cobrança "vai matar o faturamento" deles, pois "vai render milhões à empresa e aquele que tem seu único caminhão pagará a conta". Faz sentido!

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