A baixa renda dos professores

38% dos docentes da rede particular de ensino básico atualmente fazem algum tipo de “bico” fora da área em que atuam

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2018 | 03h00

Os baixos salários pagos pela rede pública e privada de ensino fundamental e de ensino médio, conjugados com instabilidade profissional e falta de perspectiva na carreira, estão levando os professores a aumentar o número de escolas em que lecionam ou a fazer trabalhos paralelos para complementar a renda mensal.

Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação, 44,6% dos docentes da rede particular atuam em mais de um colégio. Na rede pública, a proporção é de 29,1%. O estudo levou em conta o número de escolas, o número de turnos de trabalho e o número de séries em que os docentes lecionam.

Além desse levantamento, uma pesquisa elaborada no primeiro semestre de 2018 em todas as capitais do País pelo Movimento Todos pela Educação, uma respeitada organização sem fins lucrativos patrocinada por grandes empresas e instituições financeiras e composta por pedagogos, dirigentes escolares e especialistas em políticas educacionais, revela que 38% dos docentes da rede particular de ensino básico atualmente fazem algum tipo de “bico” fora da área em que atuam. Na rede pública municipal, o índice é de 22% e, na rede pública estadual, de 30%.

Segundo a pesquisa, o “bico” assegura um aumento de R$ 439,72, em média, na remuneração mensal dos professores. A necessidade de fazer trabalhos paralelos para complementar a renda é tão grande que, no ano passado, uma instituição de ensino particular lançou uma campanha publicitária para atrair o que chamou de “professores fazedores de bico”. As entidades docentes reagiram, alegando que a docência, longe de ser uma “atividade laboral de segunda categoria”, deve ser tratada como a “profissão que constrói uma nação”. A propaganda foi retirada do ar e a instituição pediu desculpas.

O resultado da desvalorização salarial do professorado é conhecido. Seja em decorrência do excesso de aulas e turmas, seja pela necessidade dos docentes de fazer trabalhos relacionados ao comércio, a produções artísticas e à prestação de serviços, para poder pagar as contas, a qualidade do ensino acaba sendo comprometida. Entre outros motivos porque, além de chegar exaustos às salas de aula, os professores ficam com menos tempo para preparar materiais didáticos, corrigir provas, desenvolver diferentes metodologias e fazer cursos de especialização e de formação pedagógica.

A pesquisa do Movimento Todos pela Educação também desmitifica a ideia de que os professores da rede privada de ensino fundamental e ensino médio teriam vencimentos muito acima dos dos docentes da rede pública. Embora as escolas particulares que atendem alunos da classe média alta paguem bem, a rede privada conta com muitos colégios que, por terem foco nos estudantes das demais classes sociais, são obrigados a cobrar mensalidades mais baixas. “As famílias hoje não têm condição de pagar mensalidades que sustentem uma boa remuneração para os docentes. Hoje, se uma escola cobra menos de R$ 1,5 mil ou R$ 2 mil, ela não consegue garantir um salário que mantenha o professor lecionando numa só unidade”, diz o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo (Sieeesp), Benjamin Ribeiro.

Evidentemente, a saída para evitar que os professores tenham de recorrer a outras atividades para sobreviver passa pela reestruturação da carreira docente. Mas esse é um desafio difícil de ser enfrentado, seja por razões financeiras, seja por pressões corporativas, seja por motivos administrativos. Por mais que a União repasse recursos para complementar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e da Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), a gestão desse ciclo educacional é de responsabilidade dos Estados e municípios, que organizam as redes escolares. Articular todos os setores, áreas e agentes envolvidos nesse ciclo deve ser uma das prioridades do governo que for eleito em outubro.

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