A causa real do apagão

A meticulosa combinação de imprevidência, engabelação com objetivos eleitorais, gestão incompetente e um plano desastroso de redução de tarifas - que compôs a essência do programa de energia elétrica do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff - não poderia produzir outro resultado que não fosse uma crise de abastecimento, como a que milhões de brasileiros sofreram na tarde de segunda-feira e que, pelo histórico recente da ação do governo e pelos dados sobre a capacidade do sistema, poderá se repetir até o fim do verão.

O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2015 | 02h05

Os órgãos federais do setor elétrico, às vezes de maneira confusa e contraditória, tentaram encontrar as explicações técnicas plausíveis para o apagão que começou por volta das 14h30 de segunda-feira, afetou o fornecimento em pelo menos 10 Estados e no Distrito Federal e causou grandes transtornos à população. A tentativa de explicação do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga - de que teria havido falha numa linha de transmissão de Furnas - foi logo desmontada pela própria estatal, que informou não ter registrado nenhum problema em suas operações.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) - responsável pela coordenação das operações de geração e de transmissão do Sistema Integrado Nacional - disse, em nota pouco esclarecedora, que o problema foi causado por "restrições na transferência de energia" das Regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, "aliadas à elevação da demanda no horário de pico". Em linguagem mais simples, isso parece significar que não havia energia para atender à demanda no horário de pico, sobretudo no Sudeste.

Mesmo reconhecendo que "estamos vivendo um ano de hidraulicidade adversa" - ou, simplesmente, não chove o suficiente para assegurar um nível adequado às represas que abastecem as usinas hidrelétricas -, o diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone, negou que tenha havido relação entre a falta de chuvas e o apagão. O problema, disse ele, foi a queda da frequência abaixo de 60 hertz, o que levou o ONS a determinar às empresas distribuidoras a suspensão seletiva do fornecimento aos consumidores, para evitar a sobrecarga que levaria ao colapso do abastecimento em todo o País.

Quando se buscam os motivos da queda da frequência, chega-se ao aumento da demanda, como reconhecem as autoridades. Visto de outro modo, fica claro que o sistema não tem condições de atender à demanda nos momentos de pico - que tendem a ocorrer em períodos de calor intenso, quando aumenta o uso de aparelhos de ar-condicionado.

Era notório, há muitos meses, que a capacidade de geração das usinas hidrelétricas vinha diminuindo rapidamente por causa da redução do nível de seus reservatórios. A falta de chuvas não prejudicou apenas o abastecimento de água, mas o governo Dilma se recusou sistematicamente a reconhecer que havia problema também no setor elétrico.

Em ano eleitoral, a candidata afinal reeleita por pequena vantagem não poderia admitir o fracasso de seu plano de redução de tarifas - agora desmontado com o gradual aumento da conta de luz - nem, muito menos, que poderia haver problemas de abastecimento. Para sua campanha eleitoral, apagão seria palavrão.

O governo escondeu como pôde o problema, assegurando, de maneira reiterada, que não haveria crise de abastecimento. Não adotou, por isso, medidas que atenuariam os efeitos negativos da seca, como a realização de campanhas para a redução do consumo, pois entendeu que, se o fizesse, perderia votos. Paga-se hoje o preço dessa decisão eleitoreira.

Passageiros que tiveram de caminhar em túneis escuros para escapar dos vagões do metrô lotados, sem luz, nem ar condicionado, simbolizam o ônus para a população da irresponsável gestão da crise energética - pois, queira ou não o governo, há uma crise - pela administração federal. E a situação pode piorar, pois as chuvas continuam insuficientes para elevar o nível das represas até o ponto de segurança operacional. É provável que os apagões se repitam, com maior abrangência.

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