A chantagem da Copa

Entre quarta e quinta-feira, a capital paulista viveu um momento em que estiveram presentes os principais elementos responsáveis pelas agruras por que vem passando a população das grandes cidades, sobretudo no que diz respeito às perturbações na circulação e ao clima de medo e apreensão criado por manifestações selvagens. Mistura de greves com política e desafios lançados por grupos aguerridos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), todos usando como elemento de chantagem a ameaça de criar o caos durante a Copa do Mundo. E, em vez de enfrentá-los, não está afastado o risco de o governo, mais uma vez, fazer concessões a movimentos ditos sociais que agem ao arrepio da lei.

O Estado de S.Paulo

06 Junho 2014 | 04h03

Os metroviários iniciaram na quinta uma greve por tempo indeterminado, deixando a pé milhões de paulistanos. Não admira que muitos deles tenham reagido com indignação e até violência, como um grupo que promoveu quebra-quebra na Estação Corinthians-Itaquera, aos gritos de "Queremos trabalhar", que mostra bem quem são os prejudicados pelo movimento. O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) determinou que 100% da rede seja operada nos horários de pico e 70% nos demais, sob pena de multa de R$ 100 mil por dia ao Sindicato dos Metroviários.

"Desafio o governo do Estado a fazer isso", respondeu o presidente da entidade, Altino Prazeres Júnior. A adesão à greve foi ampla, mas o Metrô funcionou parcialmente, com trens guiados por supervisores de estação e de operação.

Os sinais de que há influência política na greve são muito claros. A começar pelo fato de a proposta de aumento salarial feita pela Companhia do Metrô ser razoável - 8,7%, além de reajuste do vale-refeição de R$ 247 para R$ 290. Ao recusá-la liminarmente, pedindo 16,5%, mas declarando aceitar a volta ao trabalho com uma oferta mínima de 10%, o sindicato demonstra uma má vontade que certamente não se deve apenas a razões salariais.

Não por acaso, líderes de partidos esquerdistas como PSOL e PSTU estiveram entre os incentivadores da greve. Finalmente, em atitude inusitada, alguns maquinistas usaram o sistema de comunicação sonora de trens, um dia antes do início do movimento, para jogar os passageiros contra o governo, dizendo que seria ele o responsável pela paralisação.

A mesma suspeita paira sobre a greve dos marronzinhos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que recusaram proposta de aumento de 8%, bem próxima da feita aos metroviários. O prefeito Fernando Haddad, sempre cheio de dedos com os sindicatos e os movimento sociais, deve estar se sentindo traído.

Enquanto as greves pipocam pela cidade, aproveitando a proximidade da Copa, o MTST não dá trégua e agita o mesmo fantasma. No começo da noite de quarta-feira, promoveu passeata que reuniu 12 mil pessoas, segundo a PM. Ela saiu de frente da Estação Vila Matilde do Metrô, interrompeu o trânsito na Radial Leste e chegou depois de duas horas em frente ao Estádio Itaquerão. Num claro recado sobre o que pode fazer ali, onde se realizará o jogo de abertura da Copa dia 12, o MTST ameaçou impedir o acesso de torcedores ao amistoso do Brasil com a Sérvia, hoje, no Estádio do Morumbi, caso o governo federal não dê uma resposta satisfatória a suas reivindicações sobre moradias populares.

Cada vez mais arrogante, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, foi muito claro e firme: "Se o governo quiser pagar para ver, ele vai ver". O governo vem prometendo firmeza e até apelar ao Exército para garantir a ordem pública ameaçada sem rodeios por grupos irresponsáveis como esse. Mas, a julgar pelos antecedentes, Boulos pode ganhar a aposta. No começo de maio, a presidente Dilma Rousseff já cedeu uma vez à pressão do MTST. Pouco antes de uma visita ao Itaquerão, ela se reuniu com representantes daquele movimento, que saíram triunfantes com a promessa de que ele terá acesso ao programa Minha Casa, Minha Vida.

Se ela ceder novamente, neste momento, poderá pagar um preço muito caro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.