A China é um perigo?

O "Índice de Sinodependência", lançado pela revista The Economist (28/10), não alcançou a fama de sua outra criação, o Índice Big Mac. A abrangência é mais limitada, focalizando apenas o desempenho de 22 ações de empresas constantes do Índice S&P 500, da Bolsa de Nova York, com investimentos na China, e a análise do sobe-desce dos papéis termina sendo inconclusiva. Contudo, ao falar em sinodependência, a publicação introduz um neologismo que pode ter vindo para ficar. O que a reportagem pergunta, como está no título, é se a China é realmente "A economia indispensável?" Ou, em termos mais explícitos, em que medida outros países dependem da China e qual seria o efeito sobre a economia mundial de uma queda da sua economia.

, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2010 | 00h00

No que diz respeito ao Brasil, The Economist observa que a China é o nosso maior mercado, tendo absorvido 12,5% de nossas exportações em 2009. As vendas externas, porém, representam apenas 1,2% do PIB do Brasil, cuja economia está muito mais voltada para o mercado interno. A revista deixa de notar, contudo, que a China é também o maior mercado para os setores mais dinâmicos das vendas externas nacionais, como soja, minério de ferro e celulose. De outra parte, a China responde por 12,6% das importações brasileiras, só perdendo, em valor, para as importações feitas dos EUA (13,8% do total).

Outro dado significativo: 2010 pode terminar com as empresas chinesas na posição de maiores fontes de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) no País. Projeções do mercado indicam que os IEDs chineses no Brasil podem alcançar US$ 12 bilhões em 2010, um aumento de nada menos do que 14.000% em relação ao ano anterior (US$ 82 milhões). Os chineses estão hoje presentes na mineração, na siderurgia, nas áreas de energia e petróleo, no mercado financeiro e estão ingressando no setor automotivo. Com reservas cambiais da ordem de US$ 2,64 trilhões, a China estimula investimentos e compra de ativos em outros países e não admira que tenha "descoberto" o Brasil.

São dados da situação atual, podendo-se presumir que os investimentos chineses aumentem consideravelmente nos próximos anos, mantida, como se espera, a legislação em vigor. Como nota a revista britânica, a compra de ativos no exterior pela China atua no sentido de diminuir os custos de capital, enquanto seu apetite por matérias-primas eleva continuamente os preços das commodities. Isso torna o Brasil cada vez mais sinodependente, uma vez que as vendas de produtos básicos dominam a pauta de exportações, enquanto se avolumam os capitais chineses no País.

Por enquanto, a China tem tido um papel mais relevante nas economias dos países asiáticos vizinhos, particularmente Taiwan e Coreia do Sul, Tailândia e Filipinas. Em vista, porém, de suas investidas na África e na América Latina, não será surpresa se vier a assumir uma posição de muito maior destaque nesses continentes.

A expectativa é de que esse quadro venha a mudar, diz The Economist, com as previsões de que a China gradualmente deixe de ser um centro de produção mundial e se transforme num consumidor gigantesco em expansão, em benefício da economia mundial. Uma questão em aberto é se Pequim, para fazer esse percurso, aceitaria mudar a política de manter o yuan muito desvalorizado, uma questão central em suas relações comerciais com o mundo.

Pela sua agressividade a China inspira receio, mas o que aconteceria se o crescimento de sua economia sofresse uma abrupta queda? Para responder a essa pergunta, a revista recorreu a um estudo feito pela Bank Credit Analyst, uma consultoria independente, segundo a qual os efeitos não seriam tão devastadores como se imagina. Cita-se o exemplo do Japão, que já deteve uma parcela maior do PIB mundial do que a China hoje possui. A taxa de crescimento anual da economia japonesa caiu de 5% para 1% na primeira metade da década de 1990, sem grandes distúrbios na economia mundial. Pode-se admitir que não é impossível que algo semelhante venha a ocorrer com a China. Mas esse cenário não deixa de ser, a essa altura, um exercício temerário de futurologia.

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