A China é vizinha

O livro de Henry Kissinger Sobre a China (Ed. Objetiva) não é um livro totalmente sobre a China. É mais um relato das relações diplomáticas entre os dois grandes países - EUA e China.

Fernando Gabeira, jornalista,

23 Dezembro 2011 | 03h07

Para tornar o processo inteligível, Kissinger faz um longo apanhado da história da China. Pela observação dos líderes chineses, com quem o autor conviveu, aparecem também, em muitos momentos, os fundamentos da própria cultura chinesa. Kissinger, de certa forma, viu a China evoluir do isolamento relativo à ampla presença no mundo; do medo de ser atacada à discussão sobre o que fazer com sua formidável força. Algumas lições do autor sobre os chineses são simples e diretas. Não adianta, por exemplo, esperar que a China compre mais e venda menos. A exportação é um fator de seu crescimento e estabilidade.

Kissinger não critica os idealistas que querem ver os direitos humanos respeitados na China. Mas também não os anima, ao constatar que, quanto maior a pressão internacional, maior a resistência dos chineses. A relação entre dois países adversários que souberam congelar divergências para avançar juntos em algumas áreas é, sem dúvida, um grande momento diplomático.

Alguns traços dos chineses impressionam bem. Não caio na tentação de transplantar soluções para o Brasil, ignorando as diferenças históricas, culturais e políticas. Isso, no entanto, é válido para qualquer outro país. Em todo o livro, ressalta-se a visão de longo prazo dos chineses. Um diálogo transcrito por Kissinger dá um exemplo. Num momento de crise na relação entre China e EUA, em 1996, Kissinger pergunta a Jiang Zemim se ainda estava valendo a declaração de Mao de que a China poderia esperar 100 anos por Taiwan. "Não - respondeu Jiang -, a promessa foi feita há 23 anos. Agora só restam 77". Essa noção generosa do tempo pode sugerir resignação, uma demora em resolver os problemas. Não é assim na China. A análise do momento histórico e a definição de suas tarefas são realizadas com eficácia. O reconhecimento do atraso do país em ciência, tecnologia e seu esforço gigantesco para superá-lo são prova disso. Hoje, somos parceiros na construção de satélites.

Num país democrático, nem sempre os políticos conseguem transcender aos processos eleitorais. É mais difícil trabalhar com a ideia de longo prazo. O êxito nas relações China-EUA dependeu, e muito, da existência de um objetivo comum: neutralizar a URSS. Isso não limita o estudo do caso apenas às relações internacionais. No campo da política nacional, o reconhecimento das lacunas e a definição de metas que envolvam o país não são impossíveis.

É preciso colocar entre parênteses o desejo de catequizar o outro e congelar grandes problemas momentaneamente insolúveis. A China não tolera oposição. Nesse sistema, foi mais fácil reconhecer lacunas com franqueza. Em contexto eleitoral, é difícil que um governo o faça.

Recentemente, os dados sobre a execução de obras no Brasil em 2010 foram desapontadores no campo da habitação, saneamento básico e no programa Luz para Todos. Os debates na Câmara apontaram mais para a interpretação dos números. Quem os ouvisse achava que a realidade é só mais uma versão. De que lado estava? Era difícil concluir. A existência de grandes objetivos compartilhados no País não dissolve as divergências, não atenua os ressentimentos nem resolve magicamente os problemas. Mas seria uma espécie de quadro mais amplo, dentro do qual o processo democrático seguiria seu rumo. Obama sonhou com um tipo de unidade nacional e fracassou nesse ponto.

O entrechoque com objetivos puramente eleitorais é inevitável, mas limitado. Uma geração de políticos que domina a cena no Brasil, por exemplo, pode desaparecer antes que o País tenha cobertura universal de saneamento. Numa democracia, o Congresso é o espaço para definir objetivos comuns. Mas é prisioneiro das questões imediatas.

O caso da extraordinária ascensão da China é típico. Nossas relações se tornaram importantes sem que despertassem interesse equivalente no Parlamento. Pessoalmente, insisti na questão dos direitos humanos e manifestei simpatia pelo Tibete. Não abordei, com ênfase, o crescimento chinês e a complexidade das relações com o Brasil.

O livro de Kissinger, uma visão parcial, é um estímulo para estudar a China. Assim como o são reportagens que mostram suas experiências vitoriosas. A China ganhou muito quando abriu os olhos para o Ocidente. O Brasil pode ganhar muito ao abrir os olhos para a China. Desde que se compreendam as diferenças e haja um generoso diálogo intercultural. Diferenças são assim. Deng Xiaoping achava que o socialismo iria levar 75 gerações para se realizar. Um líder brasileiro pode, por seu turno, esperar também que, em algumas gerações, os direitos humanos sejam universais.

Soja, terras, minério, muita coisa no Brasil interessa aos chineses no momento. O acidente com o cargueiro Vale Beijing, na Baía de São Marcos, revelou que a Vale do Rio Doce pensa em usar 45 navios com capacidade de 400 mil toneladas cada para abastecer o mercado asiático. Operação de risco.

A indústria brasileira tem perdido fôlego. E, como tantas outras no mundo, precisa discutir com o governo o que fazer para competir com os preços chineses. Antes que o declínio seja irreversível.

O momento para focalizar a China é importante porque há sinais de crise no ar. Alguns números de sua economia são preocupantes e fala-se numa bolha explodindo no setor da construção civil. Se a China espirrar, podemos ficar resfriados no Brasil. É uma constatação conjuntural. A longo prazo, as relações devem se tornar mais importantes ainda.

Em certos setores, a tática talvez nem seja competir, como tentamos no passado, com reserva de mercado para computadores.

Assim como a informática, a indústria de energia solar é um passaporte para o futuro. A China avançou nesse campo e poderia nos levar com ela.

EUA e China caminham juntos pois cada um sabe, precisamente, o que quer. Em relação à China, pode ser que saibamos qual é nosso interesse. Mas falta discussão.

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