A China precisa de reformas

O modelo adotado pela China nas duas últimas décadas, baseado na combinação de controle político e algumas aberturas na economia, propiciou um crescimento médio anual de 10% de seu Produto Interno Bruto durante esse período, o que levou o país à condição de segunda maior economia do planeta e retirou da miséria cerca de 440 milhões de pessoas, um resultado sem precedentes na história. Mas o modelo já dá sinais de ter se esgotado e, se não passar por reformas profundas, poderá levar a China a uma crise econômica, com inéditas consequências sociais e políticas.

O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2012 | 03h08

O risco de uma crise econômica caso não haja mudanças foi apontado pelo relatório denominado China 2030, elaborado pelo Banco Mundial (Bird) e pelo Centro de Pesquisa de Desenvolvimento (CPD) chinês, subordinado ao Conselho de Estado, isto é, ao governo de Pequim. O fato de as principais autoridades chinesas terem concordado com a elaboração do relatório e de um órgão oficial chinês ter participado do trabalho indica que o documento deverá ter alguma influência nas decisões do governo.

Do ponto de vista político, o documento - que deve ser oficialmente divulgado nesta segunda-feira (27/2), mas do qual o The Wall Street Journal antecipou importantes recomendações - é mais do que oportuno. Este é um ano de mudanças na China. No segundo semestre, provavelmente em outubro ou novembro, o Partido Comunista chinês, que controla o governo, realizará seu congresso quinquenal, no qual estabelece os rumos do país para os próximos cinco anos e escolhe os novos líderes partidários.

O vice-presidente Xi Jinping deverá substituir o presidente Hu Jintao (como presidente, em março próximo, e como líder do partido, depois do congresso) e o vice-primeiro-ministro Li Keqiang deverá substituir seu chefe, o primeiro-ministro Wen Jiabao (também em março). Responsável pela aprovação do projeto de realização do trabalho conjunto do CPD com o Banco Mundial, o atual vice-primeiro-ministro concordou com a ideia tão logo ela lhe foi apresentada pelo presidente do Bird, Robert Zoellick, em setembro de 2010.

O relatório aponta o risco de o crescimento da China se desacelerar rapidamente, como ocorreu com muitos países em desenvolvimento que atingiram determinado nível de renda, o que tornaria mais graves os problemas do setor bancário e poderia resultar numa crise.

Para assegurar à economia chinesa um padrão mais alto de eficiência e de competitividade, necessário para assegurar seu crescimento futuro, o relatório recomenda a adoção de novos modelos de gestão das empresas estatais, dominantes em setores essenciais, como energia, recursos naturais, telecomunicações e infraestrutura, que têm fácil acesso a créditos subsidiados concedidos por bancos igualmente estatais. As empresas do governo, propõe o relatório, devem ser submetidas à fiscalização de empresas autônomas, para que passem a operar de acordo com critérios do setor privado, baseados na eficiência e na rentabilidade. Os dividendos gerados por elas aumentariam as receitas do governo e poderiam financiar programas sociais. Além disso, os governos locais precisam buscar o equilíbrio de suas finanças e o país precisa de mais concorrência que gere maior capacidade de empreender, isto é, precisa de mais empresários privados.

O relatório não propõe a privatização das estatais, pois a proposta seria rejeitada pelo Partido Comunista. Mas sugere a redução de seu campo de atuação. Essa tese foi exposta claramente por Zoellick em palestra que fez em janeiro em Chicago, quando afirmou que "a China precisa restringir o papel das estatais". O presidente do Bird disse também que a China precisa acabar com os monopólios, diversificar a propriedade e reduzir as restrições à atuação das empresas privadas.

No plano político, as novas lideranças chinesas enfrentarão de imediato uma crescente insatisfação social gerada pela baixa remuneração do trabalho, que tem resultado em greves em vários pontos do país, e um descontentamento com as ações do governo. A desaceleração econômica, se ocorrer, tornará ainda mais agudas as tensões sociais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.