A China se volta para os chineses

O novo plano quinquenal de desenvolvimento da China, que foi referendado em outubro pelo Comitê Central do Partido Comunista e deve ser aprovado pelo Congresso Nacional do Povo no encontro anual que começou no sábado, dia 5, em Pequim, imporá uma profunda mudança de rumo na evolução da economia do país, com impactos importantes sobre o resto do mundo.

, O Estado de S.Paulo

07 Março 2011 | 00h00

Este é o 12.º plano quinquenal chinês. Embora as projeções de crescimento neles contidas sejam geralmente subavaliadas e, por isso, desmentidas na prática, esses planos têm tido papel importante na determinação dos caminhos seguidos pela China. O quinto plano quinquenal resultou nas reformas e na abertura da economia no fim da década de 1970. Em meados da década de 1990, o nono plano transformou as estatais em empresas voltadas para a conquista de clientes ao redor do mundo, o que permitiu à China abocanhar fatias cada vez maiores do mercado internacional.

O que está sendo aprovado nestes dias "provavelmente entrará para a história como uma das iniciativas mais ousadas da China", previu o economista Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade Yale e atualmente ocupando cargo de direção do Morgan Stanley na Ásia, em artigo reproduzido pelo Estado na quarta-feira.

Serão profundas as mudanças no modelo econômico chinês, que hoje prioriza investimentos em grandes unidades industriais e em exportações. Nos próximos cinco anos, o crescimento chinês se baseará no mercado interno, no consumo e na melhoria da qualidade de vida e da renda dos chineses.

As mudanças começaram a ser pensadas há quatro anos, quando o primeiro-ministro Wen Jiabao apontou o paradoxo que vivia a economia chinesa, cujo crescimento vertiginoso encobria inconsistências graves, como a instabilidade do processo, vários desequilíbrios e a sua insustentabilidade. A recessão no mundo industrializado iniciada em 2008, que reduziu a demanda de produtos da China e afetou sua economia, mostrou o lado frágil do modelo vigente. Para reduzir sua dependência do mercado externo, a China agora se volta para os chineses.

Essa será a principal característica do 12.º Plano Quinquenal, que começou a ser elaborado no segundo semestre de 2008, quando os dirigentes chineses fizeram a avaliação dos resultados do plano anterior até aquele momento. Desde então, o governo e o partido ouviram acadêmicos, políticos e um grande número de profissionais. Daí surgiram as grandes linhas, que foram novamente discutidas com diversos colaboradores e por fim submetidas às instâncias decisórias do Partido Comunista e, agora, do Estado chinês.

Para fortalecer o mercado interno, o novo plano prevê a redução da ênfase no setor industrial, que sustentou o crescimento chinês nos últimos 30 anos. Será dada prioridade para outros setores da economia, como comércio varejista e atacadista, logística e serviços de saúde.

São setores menos eficientes do que a indústria, com menor produtividade, que por isso não garantirão o ritmo de crescimento que o país mostrou nos últimos anos. Mas, por proporcionarem maior numero de empregos, permitirão que as cidades recebam mais trabalhadores originários das áreas rurais, assegurando-lhes renda mais alta. Desse modo o governo chinês pretende compensar a redução do ritmo de crescimento, com o aumento mais rápido do emprego e da renda dos trabalhadores - o que terá como resultado adicional a redução da tensão social e política.

Para conseguir um rápido aumento do consumo doméstico, o governo terá de mudar o arraigado hábito de poupança dos chineses, que, sem dispor de um sistema previdenciário confiável, poupam tudo o que podem para garantir a sobrevivência na velhice. Mudar isso exigirá a construção de um novo sistema previdenciário, público e privado, o que representará um enorme desafio político para o governo.

Se o 12.º plano quinquenal corresponder à expectativa do governo, a China dará um forte impulso nas economias de seus parceiros comerciais. Mas reduzirá seu papel de financiador dos déficits de países como os EUA. Será outra grande mudança.

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