A consagração de Cristina

A popularidade da presidente Cristina Kirchner numa Argentina cuja economia cresce a 8% e o consumo dispara é a principal, mas não a única, explicação para o seu triunfo nas primárias de domingo para a Casa Rosada, governos provinciais e Congresso. Além do recém-readquirido bem-estar de parcela ponderável da população e da liderança pessoal cada vez mais expressiva da viúva do seu antecessor Néstor - embora ela não pare de criar oportunidades para explorar em benefício próprio a sua memória -, a fragmentação e a inexistência de líderes respeitáveis da oposição ao kirchnerismo contribuíram para uma vitória que parece antecipar o resultado da eleição presidencial de 23 de outubro.

, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2011 | 00h00

Sintomaticamente também, nada menos de 78% dos cerca de 29 milhões de argentinos aptos a votar compareceram anteontem à estreia do peculiar sistema de prévias instituído pelo governo Cristina em 2009. Diferentemente dos Estados Unidos - onde surgiu o mecanismo de consultas aos cidadãos registrados como eleitores de um ou outro partido para a seleção dos aspirantes às convenções propriamente ditas -, na Argentina as legendas ficaram obrigadas a submeter ao eleitorado inteiro seus pré-candidatos. Justificou-se a inovação como uma forma de permitir que o povo participe das decisões partidárias, reduzindo o poder das suas oligarquias.

No entanto, a votação de anteontem acabou equivalendo a um primeiro turno antecipado da sucessão, dado que as dez agremiações participantes já tinham escolhido, cada qual, um único nome para disputar a presidência. Decerto esse foi o efeito desejado pela reforma eleitoral destinada a matar no nascedouro possíveis dissidências do esquema de poder do então casal K no bloco peronista chamado Frente pela Vitória, evitando assim a repetição dos confrontos internos que antecederam o pleito de 2007. E o resultado praticamente assegura que Cristina será reeleita já na primeira rodada, com maior porcentual de votos, quem sabe, do que da outra vez.

As regras eleitorais argentinas, adotadas em 1994, dispensam a realização de um novo escrutínio quando, na disputa inicial, o candidato mais votado ou tiver alcançado 40% dos sufrágios, se a sua vantagem sobre o segundo for pelo menos de 10 pontos porcentuais, ou 45%, em qualquer hipótese. Há quatro anos, em vez de concorrer a segundo mandato consecutivo, o presidente Kirchner lançou Cristina para que ela mantivesse em família a Casa Rosada - e ele voltaria em 2011. A primeira metade do plano deu certo: com 45,2% dos votos ela liquidou a fatura de saída. Domingo, a viúva arrebanhou 50,07%, com 97% das urnas apuradas.

Prova da irrelevância a que se deixaram relegar os partidos de oposição ao populismo kirchnerista, pela desorientação, mediocridade e autofagia dos seus dirigentes, nenhum dos dois maiores rivais da presidente - Ricardo Alfonsín, filho do falecido ex-presidente Raúl, do bloco União pelo Desenvolvimento Social, liderado pelo Partido Radical, e Eduardo Duhalde, antecessor de Néstor Kirchner, do bloco Frente Popular, encabeçado pelo Partido Justicialista, do peronismo ortodoxo - conseguiu nem sequer 13%. Ficaram virtualmente empatados na casa de 12,1%. O candidato alternativo Hermes Binner, da Frente Ampla Progressista, constituída pelo Partido Socialista, obteve 10,2%.

Chamou ainda a atenção o fato de Cristina ter dado a volta por cima em Buenos Aires, Santa Fe e Córdoba, onde há pouco os seus candidatos a cargos majoritários foram surrados. O eleitorado separou as coisas. Mesmo na capital, onde não somou mais que 30% dos sufrágios, ante 22% de Duhalde, ela venceu em 12 das suas 15 comunas administrativas. Na Província de Buenos Aires, então, amealhou mais de 54% dos sufrágios. Segura de si o suficiente para afastar do seu entorno imediato os pezzonovanti da mafiosa máquina sindical peronista - já não bastasse ter feito do competente ministro da Economia, o empresário Amado Boudou, seu candidato a vice -, Cristina se consagra como a estrela singular ao redor da qual gravita a política argentina.

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