A contração da indústria

Nem a desvalorização do real, que os torna mais caros no mercado interno, nem a queda da demanda estão sendo suficientes para conter o aumento da participação dos importados no consumo doméstico de produtos industrializados, que se registra desde 2003.

O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2012 | 03h10

No segundo trimestre deste ano, a cotação do dólar em reais aumentou 10% e o consumo interno de itens industriais diminuiu 3,8% na comparação com igual período de 2011. O encarecimento dos importados, associado à contração da demanda, deveria afetar mais duramente o consumo desses itens do que o de produtos nacionais, mas está ocorrendo o inverso. A fatia dos produtos importados no mercado brasileiro continua a crescer e, no período abril-junho, alcançou o recorde de 24% do total, de acordo com levantamento da Fiesp. Isso significa que a produção da indústria nacional cai em ritmo mais acentuado do que o da redução do consumo.

Esses dados corroboram os divulgados há algum tempo pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que também mostram a perda de espaço dos produtos nacionais no consumo doméstico. O trabalho mais recente da CNI sobre o tema, referente ao primeiro trimestre deste ano, mostra que, com exceção de 2009, o índice de participação dos produtos importados no mercado brasileiro de artigos industrializados vem subindo desde 2003. O estudo abrange as indústrias extrativa e de transformação. No caso da última, o avanço dos importados tem sido mais agressivo. Em dez anos, sua participação dobrou, passando de 10,5% em 2002 para 21,1% em março deste ano.

A participação cada vez maior de itens importados no mercado interno não é necessariamente ruim. Parte desses itens é composta por insumos e componentes utilizados na produção doméstica, o que pode resultar em produtos mais avançados tecnologicamente e mais baratos. A concorrência dos importados, por sua vez, força a produção nacional a melhorar sua qualidade e a buscar mais eficiência para não perder mercado, o que pode resultar em ganhos reais para a economia brasileira.

Mas a entrada em ritmo cada vez mais intenso de produtos importados pode ser atribuída também à perda de competitividade da indústria brasileira. Cada vez mais dirigentes industriais apontam para velhos problemas que oneram excessivamente a produção local - sistema tributário pesado e complexo, custos trabalhistas, custos administrativos, deficiência de infraestrutura - e continuam sem solução à vista no curto e no médio prazos.

Medidas de emergência têm sido insuficientes para restabelecer a competitividade da indústria. A desvalorização do real ainda não produziu os efeitos esperados sobre o comércio exterior nem sobre a atividade da indústria. Na segunda semana de agosto, por exemplo, as importações de bens industriais aumentaram 0,2% no acumulado do ano pelo critério de média diária e as exportações, queda de 3,8%.

Também não são visíveis os efeitos sobre a atividade industrial das medidas tributárias e financeiras anunciadas pelo governo para apoiar a produção interna e estimular a geração de empregos, como as lembradas pelo diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini, entre as quais a redução da Selic, os esforços para a redução do spread bancário e os programas do governo de apoio a setores específicos.

O nível de emprego da indústria paulista caiu 0,16% em julho, na comparação com junho, de acordo com a Fiesp. Na comparação com julho de 2011, a queda foi de 3,28%. Embora o resultado acumulado dos sete primeiros meses deste ano seja 1,23% superior ao de igual período de 2011, a Fiesp prevê que, por causa da lenta reação da indústria de transformação às mudanças no câmbio e aos estímulos do governo, o setor deverá encerar o ano com saldo de 80 mil a 90 mil demissões.

Por causa da lenta reação da indústria, pelo menos nos próximos meses deverá se manter a tendência de crescimento da fatia dos importados no consumo interno de bens industrializados.

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