A Copa ameaçada

Para milhões de brasileiros, seria decepcionante o País deixar de realizar a Copa do Mundo de 2014, a primeira a ser aqui disputada desde 1950. Não é impossível, porém, que isso ocorra. Hoje, o Comitê de Estádios do Comitê Organizador da Fifa inicia, pelo Morumbi, uma avaliação das condições dos estádios de 12 cidades escolhidas para sediar jogos da Copa, considerado o maior evento do mundo dedicado a um único esporte. Mas o secretário-geral da Fifa, Jérôme Velcke, preveniu que "já acendeu a luz vermelha" na preparação do Brasil para a Copa de 2014.

, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2010 | 00h00

O Comitê vai encontrar no Morumbi um bom exemplo do que está ocorrendo em praticamente todas as outras cidades-sede. Foram feitas algumas obras cosméticas, mas a verdadeira reforma para adequar o estádio para a realização do primeiro jogo da Copa, uma exigência da Fifa e uma reivindicação dos torcedores, ainda está por começar. E já não se duvida de que o estádio do São Paulo Futebol Clube poderá ficar fora do Mundial.

Ultrapassada a data fixada para o início das obras planejadas nos estádios, surgem dúvidas sobre se as reformas indispensáveis estarão concluídas ao fim de 2012, como foi acertado. A começar pelo Maracanã, cujo edital de licitação nem mesmo foi publicado, permanecem intactos outros quatro estádios: os de Brasília, Fortaleza, Natal e Recife. Na planta, todos têm projetos arquitetônicos magníficos, mas, por enquanto, só servem para exposição.

Em Brasília, alega-se que a licitação não foi feita por causa da crise política que tumultuou a administração local. Em outras capitais, falta licença ambiental, uma vez que as reformas implicam demolições de estádios mais antigos, alterações no entorno, vias de acesso, etc. Há casos em que, realizadas as licitações, elas foram embargadas na Justiça por empresas perdedoras ou pelo Ministério Público.

A queixa mais comum é a falta de verbas. Os clubes alegam que não têm recursos no valor exigido para cumprir todas as exigências da Fifa e não contam com apoio de governos regionais. Os dirigentes dos clubes só se dispõem a gastar valores limitados, pedindo verbas governamentais ou isenções fiscais para iniciar projetos de ampliação e modernização. Em um ano eleitoral, com obras por concluir e inaugurar, os governos estaduais e municipais preferem deixar para depois as decisões sobre a reforma de estádios para a Copa.

Como declarou o secretário de Trabalho e Esportes do Estado da Bahia, Nilton Vasconcelos, "a pressão pelo início das obras ainda nem começou. Vai começar de fato após a Copa do Mundo da África do Sul". Ele pode estar enganado. A Fifa não enviou o seu Comitê Organizador ao Brasil à toa. Depois de observar a realidade in loco, o Comitê vai elaborar um relatório, que está destinado a ter grande repercussão na imprensa internacional, projetando uma imagem negativa do Brasil, justamente em uma área em que o País se destaca.

O que se pode esperar é que o governo federal, com tantas despesas e com limitados recursos para investimentos, acabe sendo convocado a liberar verbas especiais para estádios. Até agora, pelo menos, o governo central não se dispõe a abrir as burras. O ministro dos Esportes, Orlando Silva, afirmou que o "tema da arena, dos estádios, é com as cidades", às quais pediu "mais trabalho". Mas, apesar de toda essa encenação, pode bem ser que, afinal, o Planalto mude de opinião para "salvar a honra nacional".

A realização da Copa do Mundo de 2014 vinha sendo tida como grande incentivo para investimentos que sanariam as deficiências mais flagrantes das grandes cidades e melhorariam a imagem do País como polo turístico. O setor privado procura fazer a sua parte no que diz respeito à hotelaria e serviços, mas o gargalo está na infraestrutura. Salvo uma ou outra exceção, os projetos dos estádios e de renovação urbana no entorno estão emperrados e os aeroportos saturados, à espera de um plano de modernização que não saiu do plano das ideias. Ganhar uma Copa no campo parece mais fácil para o Brasil do que sediar esse tipo de evento no século 21.

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