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Desafios na corrida pela vacina

Em fase 3, apenas esta iniciativa chinesa e a da Universidade de Oxford em parceria com a Universidade Federal de São Paulo, que já inicia o processo de recrutamento de dois mil voluntários

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 14h00

Vacinas são por definição uma suspensão de microrganismos vivos atenuados ou mortos (bactérias e vírus) ou fração deles, administradas para induzir imunidade e assim prevenir doenças infecciosas. A maioria das vacinas tem seu desenvolvimento entre 5 e 20 anos para aplicabilidade em seres humanos e, assim, alcançar os resultados esperados. Isso foi evidenciado no caso do HPV, sarampo, poliomielite dentre tantas outras. Mas existem uma quantidade enorme de tentativas em descobrir uma vacina para o vírus HIV desde sua descoberta na década de 1980. Ainda esperamos e até o momento há apenas drogas terapêuticas, que têm se mostrado efetivas. 

Atentem para as dificuldades. Nosso programa nacional de imunização (PNI) é um dos mais respeitados em nível mundial e oferta, de modo gratuito, inúmeras vacinas. Com isso, conseguimos diminuir muitas infecções entre nós desde o nascimento do indivíduo. Mas, neste momento de pandemia da covid-19, vivenciamos mortes em números expressivos e sem dispor de tratamentos eficazes, o que leva ao pânico parte da população que dispõe neste momento apenas das medidas de distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos para combate ao novo coranavírus. 

Existe uma luz no horizonte: em junho deste ano fomos brindados na coletiva de imprensa do Governo do Estado de São Paulo sobre o acordo da vacina do laboratório chinês Sinovac-Biotech com o Instituto Butantan. Esta junção ocorrera na fase 3 da vacina, está sendo a mais importante e impactante do ponto de vista de eficácia e segurança. É claro que não podemos inferir neste momento da pandemia a certeza de sucesso, mas vemos a necessidade de se fazerem testes em voluntários sadios para que se possa alcançar índices superiores a 85% de eficácia e, assim, imunizar boa parte da população mundial. 

Os critérios de inclusão e exclusão estão sendo definidos junto aos centros investigadores, mas antes existem processos como aprovação junto à Anvisa e ao Conep (comissão nacional de ética em pesquisa) para que todas as formalidades científicas sejam concretizadas e assim iniciarmos a busca pelos 9 mil voluntários. Tenho certeza que deve ser amplamente divulgado, em todos os meios de divulgação, os critérios necessários para que indivíduos busquem participar da pesquisa. Podemos adiantar que a administração devera ser em duas doses com intervalo de 14 dias se formos levar em conta as duas fases previas feitas na China. Nestas fases os índices superaram 90% de eficácia. Assim, se foram espelhados na fase 3 teremos sucesso alcançado em tempo recorde. 

Existem mais de cem estudos clínicos na área de vacinas de covid-19 em desenvolvimento segundo informe da OMS, a Organização Mundial de Saúde. Esta vacina é uma das dez possibilidades que temos ao redor do mundo com chances reais de dar certo. Em fase 3, apenas esta iniciativa chinesa e a da Universidade de Oxford em parceria com a Universidade Federal de São Paulo, que já inicia o processo de recrutamento de dois mil voluntários. Dentre estes voluntários deverão ser escolhidos prioritariamente os profissionais da saúde na linha de frente da covid-19 em São Paulo e Rio de Janeiro. 

Entre elas existem diferenças de tecnologia: a do Butantan será de vírus inativado (vírus modificado com partículas químicas ou calor de tal forma que se torna incapaz de causar infecção), tecnologia esta já existente neste instituto de pesquisa segundo seu diretor técnico mencionou na coletiva de imprensa e terá investimento do governo estadual em torno de 85 milhões de reais. A outra vacina tem apoio da Fundação Lemann e anunciado também pelo governo federal investimentos a dias atrás, sem mencionar o investimento financeiro e com uso de vetor viral não replicante (um vírus como adenovírus é geneticamente modificado para produzir proteínas do coronavírus sendo enfraquecido e não causando doença). O que temos nestas duas vacinas de similaridades é o término previsto para o primeiro semestre de 2021. Nós temos de apoiar estes dois estudos e não gerar conflitos políticos de qual será melhor ou pior. 

Temos de pensar na população a despeito de vontades partidárias. Não podemos misturar política com saúde. Enquanto os resultados não são publicados, não devemos baixar a guarda e sim intensificar as medidas preventivas. Vamos aguardar com ansiedade os resultados e, assim, colocar o Brasil no cenário mundial da pesquisa e desenvolvimento da ciência e o melhor de tudo: salvar vidas e retorno ao nosso cotidiano com segurança. 

Que a corrida da vacina seja promissora, efetiva e coroada de êxitos.

*Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia

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