A Cracolândia, de novo

Desta vez, tudo começou quando PMs abordaram dois suspeitos na Rua Helvétia

O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2017 | 03h00

O confronto entre usuários de drogas e policiais militares (PMs), na quinta-feira passada na Cracolândia – que deixou oito feridos, dos quais seis policiais –, deixou claro mais uma vez aquilo que qualquer observador atento já sabia, até porque tudo acontece ali à vista de todos, isto é, que muito pouca coisa mudou naquela região, apesar dos esforços feitos nos últimos anos pela Prefeitura e pelo governo do Estado. Tanto na recuperação dos dependentes como no combate ao tráfico quase não se avançou.

A situação é sempre tão tensa na Cracolândia que basta um incidente mínimo – ou mesmo uma simples suspeita a respeito – para desencadear um conflito. Desta vez, tudo começou quando PMs abordaram dois suspeitos na Rua Helvétia e foram atacados por um grupo de dependentes inconformados com essa ação corriqueira. Eles partiram para cima dos PMs com paus e pedras. No auge do conflito, estima-se que chegou a cerca de 300 o número de usuários de drogas enfrentando os PMs, que haviam recebido reforço da Força Tática. Ergueram barricadas e atearam fogo a sacos de lixo.

A PM reagiu, como não poderia deixar de fazer, com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. O fato de seis dos oito feridos serem PMs não deixa dúvida sobre em quem deve cair a responsabilidade pelo conflito. Os outros dois eram jornalistas. Um PM e um jornalista foram atingidos por tiros disparados, pelo que se apurou, por integrantes do chamado “fluxo”, que é a aglomeração dos dependentes.

A secretária municipal de Desenvolvimento Social, Soninha Francine, criticou a ação da PM em rede social, segundo o jornal Folha de S.Paulo: “Inadmissível a polícia tacar bombas dentro da Tenda Helvétia. Seja qual for o fato que motivou a entrada da PM, a ação em si foi absurda”. Que a secretária reveja ou não sua posição depois de se informar melhor sobre o que ocorreu – o que seria desejável –, a verdade é que sua primeira reação corresponde inteiramente ao politicamente correto, que consiste em achar que a polícia deve ser sempre condenada por excessos, quer ela os tenha cometido ou não.

Quem pensa assim esquece – embora isso seja elementar – que a polícia é paga e armada pela sociedade para manter a ordem pública. E que quando atacada, como foi o caso, tem de se defender, sob pena de se desmoralizar e, claro, deixar de cumprir seu dever. Não há dúvida de que seus eventuais excessos têm de ser punidos com rigor, mas daí a achar que ela deve ser sempre considerada suspeita de fazer isso vai uma enorme distância.

Sobre isso não deveria pairar dúvida, porque a polícia tem um papel fundamental a cumprir na Cracolândia. Esse incidente mostrou que o que se deve reprovar no governo do Estado, que comanda a PM, é justamente sua ação tímida no combate ao tráfico de drogas naquela região, juntamente com a Polícia Civil. É público e notório que se vende droga ali a qualquer hora do dia e da noite. Sem repressão competente e continuada ao tráfico não será possível avançar na solução do problema.

Outra coisa que ficou igualmente evidente no confronto de quinta-feira é que na outra ponta do problema – a assistência médica e social aos dependentes, voltada para seu tratamento e recuperação – a situação também não melhorou grande coisa. O “fluxo” não só continua onde sempre esteve, como seus integrantes se mostram dispostos a enfrentar a polícia para manter seus hábitos e a ação de seus fornecedores.

O prefeito João Doria, que ensaia seus primeiros passos e já anunciou que pretende atacar o problema, deve estar atento a essas realidades. Qualquer solução passa necessariamente por uma combinação de assistência aos dependentes e combate ao tráfico. Não há muito o que inventar. Nos dois casos, o avanço depende de estreita colaboração entre os governos municipal e estadual. Como Doria e o governador Geraldo Alckmin não se cansam de proclamar sua perfeita sintonia, essa é uma boa oportunidade a ser aproveitada.

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