A Cracolândia se multiplica

A partir do momento em que se constatou que a Cracolândia estava criando fundas raízes, ante a dificuldade do poder público de atacar com êxito o problema em seus vários aspectos - que vão da assistência aos dependentes para levá-los a se tratar a uma ação enérgica e eficiente da polícia no combate ao tráfico de drogas -, não era difícil de prever que aquele núcleo de criminalidade e vício acabaria se proliferando pela cidade. É o que está acontecendo, tornando o problema ainda mais grave, se uma resposta adequada não for logo encontrada.

O Estado de S.Paulo

08 Março 2015 | 02h05

Diante do que se passava, a Prefeitura realizou uma pesquisa que no fim de 2013 identificou 30 pontos de consumo de drogas que podiam se transformar em novas cracolândias. O primeiro sinal de alerta de que isso já estava se tornando realidade foi dado poucos meses depois, em fevereiro de 2014, quando uma reportagem do Estado mostrou que uma "feira livre" de drogas - frequentada principalmente por adolescentes - funcionava todas as noites, mas com maior intensidade nas de sexta-feira e de sábado, na Rua Peixoto Gomide, entre as Ruas Augusta e Frei Caneca, bem próximo da Avenida Paulista. Por isso, foi chamada de Cracolândia dos Ricos.

Apesar das queixas seguidas dos moradores contra a presença de usuários e traficante de drogas, que cria insegurança e perturba seu sossego, e das promessas das autoridades de acabar com a "feira livre", o problema persiste. É recorrente - melhora quando a ação da polícia se intensifica e piora quando ela diminui, como aconteceu no fim do ano passado.

Agora, outra reportagem, desta vez da Folha de S.Paulo, mostra que a multiplicação das cracolândias ocorre em regiões afastadas do centro. Embora com dimensões menores do que a original - a exemplo do que acontece também com a da Peixoto Gomide - elas já são uma realidade em pelo menos 15 daqueles 30 pontos mapeados pela Prefeitura. Uma delas fica na Vila Leopoldina, na zona oeste, perto da Ceagesp, onde uma centena de viciados consomem crack livremente, comprado com facilidade de pequenos traficantes, como na Cracolândia.

Aglomerações semelhantes existem em diferentes pontos da cidade - nas imediações do Viaduto Jabaquara, da Avenida Roberto Marinho e da Rua Estácio Coimbra. Outras minicracolândias, algumas não identificadas pela pesquisa da Prefeitura, existem no Tatuapé, na Vila Maria e também nas proximidades da Avenida Paulista, no túnel Noite Ilustrada. Ou seja, o fenômeno está se generalizando e não poupa nenhum bairro, pobre ou rico, sendo essa sabidamente uma característica do crack, uma droga barata e de efeitos devastadores.

O problema vem se agravando rapidamente não só porque é de solução difícil, mas porque ele não tem recebido do poder público toda a atenção que merece. Se mesmo na Cracolândia, com uma razoável estrutura de assistência social e médica montada pela Prefeitura e o governo do Estado para atender os dependentes, os resultados deixam muito a desejar, é fácil de imaginar o que se passa nesses pequenos núcleos que se espalham pela cidade e cujo potencial de crescimento é grande, e em curto prazo.

A Prefeitura anuncia a expansão do programa De Braços Abertos para seis bairros. A experiência da Cracolândia - onde os hotéis que abrigam os dependentes estão em situação lastimável, por obra dos próprios viciados - mostra que seu alcance é limitado. Portanto, não se pode esperar muito da medida. Outras mais ousadas, voltadas para a assistência aos dependentes, são necessárias.

Atacar o outro lado do problema, o do combate ao tráfico, pode produzir mais resultados a curto prazo. Em fevereiro, o prefeito Fernando Haddad e o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, chegaram a um acordo para tomar em conjunto uma série de medidas, em especial no setor de inteligência, destinadas a tornar mais eficientes as ações contra os traficantes na Cracolândia. Não há por que deixar de fazer isso também nas minicracolândias, enquanto ainda é possível conter seu crescimento.

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