A crise bateu no consumo

Demorou, mas a estagnação da economia brasileira atingiu com força o consumo e as vendas do varejo. Com a inflação disparada, os juros em alta e o emprego rateando, os consumidores se tornaram mais moderados no segundo semestre. As vendas de lojas e supermercados, apesar das festas, diminuíram no fim do ano. Em dezembro, o comércio varejista "ampliado" - incluídas as lojas de veículos e componentes e as de material para construção - vendeu 3,7% menos que em novembro. No comércio restrito, a queda de um mês para outro foi de 2,6%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os novos números completam um cenário de crise só atenuado pelo desempenho ainda razoável do agronegócio, o setor mais competitivo da economia nacional.

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2015 | 02h05

O consumo foi muito mais vigoroso que a atividade industrial nos últimos quatro anos. Essa demanda, sempre excessiva no período, foi sustentada pelo crédito em expansão, pela criação de empregos (embora de baixa qualidade), pelo aumento da massa de salários, pela gastança federal e pelos estímulos bancados pelo Tesouro.

Uma das consequências da forte demanda de consumo foi a inflação sempre bem acima da meta de 4,5% ao ano. Apesar de alguma oscilação, a produção industrial tendeu sempre para baixo, durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. No ano passado, a indústria produziu 3,2% menos que no ano anterior. O comércio varejista "ampliado" - denominação usada pelo IBGE - vendeu 1,7% menos que em 2013. O resultado é explicável basicamente pelo recuo de 9,4% das vendas de veículos e componentes.

Em 2014, o esquema de benefícios especiais para a indústria automobilística perdeu eficácia. Além disso, o crescimento foi nulo para o comércio de materiais de construção, apesar do programa habitacional e das promessas de maior investimento em infraestrutura. São mais elementos para o grande painel dos fiascos federais.

O comércio varejista restrito - sem veículos e componentes e sem material de construção - ainda vendeu durante o ano 2,2% mais que em 2013, mas a maior parte dos oito segmentos pesquisados teve desempenho modesto. A média foi puxada para cima pelo setor de artigos farmacêuticos, ortopédicos e de perfumaria, com aumento de vendas de 9%, e pelo de "outros artigos de uso pessoal e doméstico", com avanço de 7,9%. Cultura e informação foram os segmentos mais sacrificados. As vendas de livros, jornais, revistas e papelaria foram 7,7% inferiores às do ano anterior.

Apesar de tudo, manteve-se o desequilíbrio geral do mercado e a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 6,41%, muito perto do limite de tolerância, de 6,5%. O resultado final foi muito parecido com aqueles observados a partir de 2010. É a inflação descrita como "persistente" nos documentos do Banco Central e explicável basicamente por um erro de política econômica - o estímulo muito maior ao consumo do que à produção.

O desajuste aparece também nas contas externas. O superávit comercial encolheu seguidamente nos últimos quatro anos e em 2014 foi substituído por um déficit de US$ 3,96 bilhões. Pela primeira vez em muito tempo o bom resultado obtido pelo agronegócio foi insuficiente para compensar o rombo no comércio da maior parte da indústria.

A exportação de manufaturados, no valor de US$ 80,21 bilhões, foi 13,7% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. A de industrializados, no valor de US$ 109,27 bilhões, foi 11,5% inferior à de 2013. Estes números incluem uma fatia das vendas do agronegócio (contabilizadas, na maior parte, como produtos básicos). Sem alimentos processados, como açúcar demerara e café solúvel, o saldo comercial dos industrializados seria pior.

Em 2014, o descompasso entre o consumo e a oferta interna de bens e serviços ficou um pouco menor, mas o equilíbrio ainda está distante. O arrocho fiscal e monetário é inevitável, mas a solução de longo prazo só virá com mais investimentos produtivos. Isso dependerá de confiança na economia.

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