A crise com cara de gente

O governo brasileiro está certo ao eleger a manutenção do emprego como prioridade, mas isso não bastará para preservar o novo padrão de vida alcançado por milhões de famílias, se os chamados fundamentos da economia forem comprometidos. A redução da pobreza no Brasil, desde a última década, resultou não só do retorno ao crescimento econômico, mas também do controle da inflação e do fortalecimento das políticas sociais. A lembrança destes fatos é particularmente importante neste momento, quando a crise global ameaça lançar milhões de pessoas na miséria, em todo o mundo, e as metas de redução da pobreza - as chamadas Metas de Desenvolvimento do Milênio - parecem tornar-se mais distantes. Com uma indústria importante e diversificada e uma agropecuária eficiente e competitiva, o Brasil tem condições excepcionalmente favoráveis para enfrentar a crise originada nos mercados financeiros do mundo rico. Mas uma parcela considerável de sua população ainda vive em condições precárias e alguns milhões de famílias só recentemente ingressaram no mercado de consumo. Os efeitos sociais mais graves da crise devem ser menos sentidos no Brasil do que noutros países em desenvolvimento, mas nem por isso as autoridades nacionais devem desconsiderar o cenário social descrito no Relatório de Acompanhamento Global (Global Monitoring Report) preparado pelo Banco Mundial e intitulado, muito apropriadamente, Emergência no Desenvolvimento.Segundo o relatório, o número de pessoas em extrema pobreza aumentará em 2009 por causa da crise global. A produção dos países em desenvolvimento deve crescer 1,6%, mas a média anual de expansão em 2006 e 2007 foi de 8,1%. Para países muito pobres, como os da África ao Sul do Saara, mesmo taxas tão elevadas quanto as dos últimos anos são apenas suficientes para mitigar a pobreza e ampliar as oportunidades de emprego produtivo. A retração econômica nos países em desenvolvimento deverá jogar na extrema pobreza cerca de 55 milhões de pessoas, na melhor hipótese, ou 90 milhões, na menos favorável, segundo o Banco Mundial. Os países de renda baixa serão afetados, de acordo com o relatório, por uma combinação de desastres: reduções dos volumes e dos preços de exportações, do dinheiro enviado pelos migrantes, do turismo, do investimento estrangeiro e, talvez, da ajuda oficial. Muitas famílias em países pobres e em desenvolvimento dependem da ajuda de parentes no exterior. Com o desemprego no mundo rico, essa fonte secou. Em alguns países, migrantes têm sido mandados embora ou incentivados a partir, como ocorre com trabalhadores brasileiros no Japão. As maiores vítimas da crise global pouco sabem de economia e finanças e simplesmente batalham para manter suas famílias e conquistar melhores condições de vida. Nos países de renda média, como o Brasil, isso pode corresponder a uma geladeira, um televisor, um aparelho de som, comprados a crédito, e, mais importante, mais educação para os filhos. O controle da inflação e os ganhos de produtividade acumulados na agropecuária foram fundamentais para a ascensão econômica de milhões de famílias. Aumentos salariais e transferências de renda teriam sido muito menos eficientes se a inflação continuasse a corroer os orçamentos familiares e a queda relativa dos preços da comida, desde o início dos anos 90, não liberasse dinheiro para o consumo de outros produtos - apesar do aumento dos preços de outros bens e serviços públicos. Este detalhe é frequentemente esquecido. Enquanto o Banco Central trabalhar com a autonomia de fato assegurada nos últimos anos, o risco de uma recaída na inflação será limitado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter mais consciência desse fato do que a maior parte de seus assessores mais próximos. Mas a estabilidade a médio prazo dependerá também de uma política fiscal mais calibrada, com incentivos mais planejados e uma dose menor de improvisação. Isso permitirá ao Brasil sair da crise em condições mais vantajosas que as de muitos outros países.

, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.