A crise da Crimeia

Nikita Sergueievich Kruchev deve estar se revolvendo no túmulo do cemitério Novodevichy, em Moscou, onde jaz desde 1971. Em 1954, o ditador resolveu dar à então República Socialista Soviética da Ucrânia um presentaço pelo 300.º aniversário da unificação do país com a Rússia: entregou-lhe a Península da Crimeia, no Mar Negro, outrora a joia da coroa da Rússia imperial e resort privilegiado das cortes czaristas - como viria a ser, depois da Revolução, da elite comunista, a nomenklatura do regime.

O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2014 | 02h08

Kruchev mencionou de passagem a decisão a alguns camaradas a caminho de um almoço. Naturalmente, todos assentiram. Em seguida, numa sessão de apenas 15 minutos, o órgão máximo do Estado, o Presidium do Conselho Supremo da URSS, chancelou a aparente generosidade. Aparente porque, na realidade, se tratava de uma reparação. No final dos anos 1930, sob as ordens de Stalin, Kruchev comandou em território ucraniano o expurgo dos "inimigos do povo" que abateu milhares de pessoas.

De mais a mais, como lembra a sua bisneta, Nina Krucheva, professora de relações internacionais em Nova York, em 1954 pouco importava se a Crimeia fizesse parte da Rússia ou da Ucrânia. Era tudo uma coisa só - para a eternidade. Mas, em 1992, passado um ano do desmoronamento da União Soviética, quando o Conselho Supremo, agora da Rússia, considerou ilegal o ato de Kruchev, o máximo que Moscou conseguiu da Ucrânia foi a denominação da Crimeia como república autônoma.

O problema - que acaba de irromper a plena força com a queda do presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovich, derrubado por uma insurreição popular - é a composição étnica da Crimeia. São de origem russa, falam russo, têm estreitos laços econômicos com a Rússia e se sentem parte da Mãe-Pátria, como dizem, cerca de 60% dos 2 milhões de habitantes da região. Foi para a Crimeia, por sinal, que Yanukovich fugiu.

A destituição do que era, afinal, um presidente legítimo - e que assim continua a se considerar - pôs em pé de guerra, de um lado, a maioria russa da península e, de outro, as minorias ucraniana e tártara. Esta última, muçulmana, representando uns 15% da população, odeia a Rússia por dois motivos. Um, a deportação de 190 mil dos seus para a Ásia Central, em 1944, acusados por Stalin de colaborar com os nazistas. (Só puderam voltar em 1991.) Outro, a aversão do presidente Vladimir Putin aos islâmicos em geral, na Rússia vítima de atentados terroristas.

Nos últimos dias, membros das três etnias se engalfinharam em Simferopol, a capital da região. Ontem, nacionalistas russos, com máscaras e armas, ocuparam o Parlamento e edifícios públicos, neles hasteando a bandeira da Federação Russa. Diante da sede do Legislativo, o líder de um grupo que se intitula Movimento Russo para a Crimeia leu uma nota de Yanukovich, já albergado na Rússia, reiterando ser o presidente de direito da Ucrânia e pedindo a Moscou que garanta a sua segurança pessoal ameaçada pelos "extremistas".

Em Kiev, o governo interino considerou irrelevantes as palavras do líder deposto. Mas as novas autoridades levam apropriadamente a sério a possibilidade de erupção de um movimento separatista na Crimeia, com o apoio de Moscou. O temor - compartilhado pelo Ocidente - se agravou com a primeira resposta de Putin à sua maior derrota desde que chegou ao Kremlin, como premiê, em 1999. Na quarta-feira, três dias depois do abalo, colocou em alerta as tropas no oeste russo e ordenou manobras de vulto na soleira da Ucrânia.

Pode ser apenas o que os argentinos chamam saludo a la bandera - uma homenagem ritualística ao poderio nacional, para avisar aos novos governantes ucranianos e seus aliados ocidentais que não podem ignorar a realidade geopolítica da região. Putin decerto está pronto para advertir que ela inclui o bem-estar dos russos da Crimeia. Ali está fundeada a frota do país no Mar Negro. O chanceler Sergei Lavrov já está dizendo que a Rússia "não transigirá" na defesa dos seus compatriotas na Ucrânia.

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