A crise de água e as mudanças climáticas

Todos sabemos que o clima varia constantemente e é difícil de prever: ora chove muito, ora chove pouco, ora faz calor, ora faz frio. Nunca há dois dias exatamente iguais, mas os cientistas aprenderam que essa variabilidade ocorre em torno de valores médios.

José Goldemberg, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h04

Por exemplo, a média anual da precipitação de chuva de 1961 a 1990 em São Paulo foi de 1.441 milímetros e bastaria para cobrir toda a área da capital com uma camada de água de 1 metro e 44 centímetros. A precipitação mínima foi no mês de agosto, 39,6 milímetros, e a precipitação máxima, no mês de janeiro, 237,4 milímetros. O mesmo se dá com a temperatura: nos meses mais quentes as temperaturas raramente são superiores a 23 graus centígrados e nos meses mais frios a temperatura máxima poucas vezes ultrapassa os 15 graus.

Sucede que existem eventos climáticos, quer de temperatura, quer de chuva, que são extremos e raramente acontecem. Por exemplo, em 17 de outubro de 2014 a temperatura atingiu 37,8 graus centígrados, a maior desde 1961. Em 24 de julho de 2013 a temperatura não ultrapassou 8,7 graus, na tarde mais fria desde 1962.

As variações extremas no regime de chuvas podem ameaçar o suprimento de água potável a grandes centros urbanos como São Paulo, mas há outras consequências, como a variação de precipitação nas grandes bacias hidrográficas, que pode comprometer a produção de energia das usinas hidrelétricas. Essa situação se agrava ainda mais na medida em que usinas são construídas sem reservatórios ("a fio d'água"), sendo totalmente dependentes do fluxo de água. Além disso, mesmo que chova muito, a precipitação pode ser nos lugares errados, como é o que está acontecendo com o reservatório da Cantareira, em São Paulo.

As causas desses eventos extremos são complexas, mas o principal suspeito é o aquecimento global. Com a atmosfera mais quente, ela se torna mais turbulenta, sendo necessário descarregar essas turbulências em algum lugar: são secas, furacões e inundações sem precedentes, que afetam grandes populações e causam prejuízos materiais de centenas de bilhões de dólares. É um fato bem documentado que esses eventos climáticos se estão tornando cada vez mais frequentes.

É por essa razão que já em 1992 foi adotada no Rio de Janeiro a Convenção do Clima, cujo propósito é estabilizar a concentração de gases responsáveis por este aquecimento, o principal dos quais se origina na queima de combustíveis fósseis. Essa concentração já aumentou muito desde o início da Revolução Industrial, no século 19, e continua aumentando.

Em 1977, por meio do Protocolo de Kyoto tentou-se impor aos países limites para suas emissões. Essa política não funcionou muito bem porque só os países da União Europeia aceitaram as limitações. Os demais, incluindo os Estados Unidos, a China e os países em desenvolvimento, mantiveram-se fora dele, já que essas limitações foram vistas como uma ameaça ao seu crescimento econômico.

Hoje a situação é outra: as consequências do aquecimento global, do qual os eventos climáticos extremos são a manifestação mais dramática, convenceram a maioria dos países a adotar medidas sérias a respeito. E os países signatários da Convenção do Clima vão se reunir em Paris no fim deste ano de 2015 para adotar um substituto do Protocolo de Kyoto (ou instrumento legal equivalente).

Em preparação para essa conferência houve uma reunião em Lima, no Peru, em dezembro de 2014, na qual foram aprovadas as linhas gerais do que será o novo acordo. O procedimento impositivo do Protocolo de Kyoto, que fixava (de "cima para baixo") cotas de reduções de emissões, foi abandonado. O que foi adotado é que todos os países terão de apresentar até abril compromissos quantitativos de reduções de gases de efeito estufa de maneira clara e transparente, acompanhados de informações detalhadas das ações que cada país vai desenvolver para que essas reduções sejam atingidas.

O governo brasileiro, como os demais governos, está preparando os compromissos que vai submeter à conferência de Paris. Isso já foi feito anteriormente, em 2009, quando compromissos voluntários foram apresentados pelo Brasil na Conferência das Partes da convenção em Copenhague, da qual participou o próprio presidente Lula. O compromisso foi reduzir de 36,1% a 38,9% as emissões que deveriam ocorrer em 2020. Essas metas foram baseadas num crescimento rápido superestimado da economia, que não se concretizou.

Este tipo de "contabilidade criativa", que também foi adotado por alguns outros países, não é o que se espera agora para a conferência de Paris. O que se espera são propostas concretas sobre o que fazer. A mais óbvia é a redução do desmatamento da Amazônia, que em boa parte já foi feita.

Além disso, o problema é evitar que cresçam em demasia as emissões do setor de energia e da indústria. O governo federal, acuado pela crise de eletricidade, adotou como solução a geração de energia elétrica em usinas térmicas, que são emissoras de gases de efeito estufa, para cobrir o "déficit", em lugar de estimular as energias renováveis. Esse problema precisa ser resolvido.

Da mesma forma, na indústria a solução é aumentar a produtividade, modernizando os processos produtivos, o que, aliás, é indispensável por outros motivos além do aquecimento global.

Espera-se que a proposta brasileira para a conferência de Paris seja mais realista do que a que foi apresentada em 2009 e que o País reconquiste o papel de liderança que desempenhou na Conferência do Clima do Rio em 1992.

*José Goldemberg é professor emérito da USP e foi secretário de Ciências e Tecnologia da Presidência da República 

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