A crise desembarcou

A crise internacional chegou aos portos brasileiros, derrubando os preços dos principais produtos exportados pelo Brasil - commodities agrícolas, minérios e semimanufaturados. A indústria, muito menos competitiva do que há alguns anos, ainda aumenta as vendas para alguns países, mas seu desempenho, de modo geral, continua ruim até no mercado interno, invadido por mercadorias fabricadas no exterior. Em abril, as exportações totais, no valor de US$ 19,6 bilhões, foram 7,9% menores que as de um ano antes. As importações, no valor de US$ 18,7 bilhões, também foram inferiores às de abril de 2011, mas a queda foi de apenas 3,1%. A demanda de produtos estrangeiros pode ter sido afetada pela perda de ritmo da economia nacional, mas continua bem mais vigorosa que a procura de bens oferecidos pela indústria brasileira.

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h05

Os resultados do comércio exterior mais numa vez confirmam o principal defeito da estratégia anticrise adotada pelo governo brasileiro. O Brasil, têm repetido a presidente Dilma Rousseff e seus ministros, enfrentará com sucesso a crise global graças ao potencial de seu mercado interno. O poder de compra desse mercado tem sido alimentado tanto pelo aumento do bolo de rendimentos quanto pela expansão do crédito. Mas a indústria brasileira tem sido incapaz, por vários fatores, de responder ao crescimento da procura. Mesmo a depreciação do real, nos últimos meses, pouco elevou o poder de competição dos produtores nacionais, prejudicado por uma série de custos e de ineficiências made in Brazil. Por isso, o vigor do mercado interno tem criado excelentes oportunidades para a produção estrangeira. Com a retração de outros compradores, os mercados brasileiro e de outros países latino-americanos se tornam especialmente atraentes para chineses e outros competidores.

Além disso, os efeitos da crise global são bem visíveis nas exportações de commodities. Um levantamento de 23 dos principais produtos básicos e semimanufaturados vendidos pelo Brasil mostrou a seguinte evolução: 18 deles têm preços menores que os de um ano antes e 16 têm menor volume de vendas. No conjunto, 16 desses produtos proporcionaram receita menor que a de abril de 2011.

As cotações de vários produtos permanecem até elevadas, pelos padrões históricos, mas o recuo nos últimos 12 meses foi sensível e refletiu tanto a estagnação europeia, agravada no começo deste ano, como a perda de impulso da China e de outras economias emergentes.

O superávit comercial acumulado no ano, de US$ 3,3 bilhões, é 33,7% menor que o de janeiro a abril de 2011, ou 35,3% inferior, se a comparação for feita com base na média por dia útil. Em quatro meses, a receita de exportações, de US$ 74,6 bilhões, foi 2% maior que a dos primeiros quatro meses do ano passado. A despesa com importações, de US$ 71,3 bilhões, ficou 4,8% acima da registrada em igual período de 2011. Atribuir esse descompasso à diferença entre a situação do Brasil, ainda razoável, e a da Europa, em recessão, é contar apenas parte da história. O resultado seria diferente, se a indústria nacional fosse mais capaz de brigar por espaços tanto no exterior como no mercado interno.

Apesar disso, a receita das vendas de manufaturados, de US$ 28,4 bilhões em quatro meses, foi 3,4% superior à de um ano antes, consideradas as médias por dia útil. Na mesma comparação, a receita dos produtos básicos aumentou apenas 2%, enquanto a dos semimanufaturados encolheu 3,3%. Mesmo com enorme dificuldade para competir, a indústria pode comemorar pelo menos esse resultado positivo.

O aumento das vendas de manufaturados é em boa parte explicável pela expansão das exportações para os Estados Unidos, 29,5% maiores que de janeiro a abril do ano passado. A receita das vendas para a China foi apenas 5% superior à de igual período de 2011 - e essas vendas, como sempre, foram constituídas quase exclusivamente de commodities. A maior e mais desenvolvida economia do mundo é um dos melhores mercados para a indústria brasileira. Com o maior dos emergentes, a economia brasileira tem uma relação semicolonial, mas definida como estratégica pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O atual governo parece manter essa avaliação.

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