A crise do FMI

Dominique Strauss-Kahn ficará na história do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da economia globalizada pela quebra de dois recordes. Nenhum de seus antecessores se envolveu num escândalo tão espetaculoso quanto o caso criminal iniciado no último sábado, quando foi preso sob acusação de abuso sexual. E nenhum teve um papel tão importante quanto o dele no enfrentamento de uma grande crise centrada no mundo rico - de fato, a crise mais ampla e mais grave desde a depressão dos anos 30 do século passado. Ex-deputado, ex-ministro da Economia da França e por enquanto diretor-gerente do FMI, ele passará os próximos dias, talvez meses, tentando evitar uma pesada condenação por um tribunal americano. Não fosse o escândalo sexual, estaria ajudando a Europa a vencer o desafio das dívidas soberanas e discutindo um novo financiamento para evitar um calote grego.

, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2011 | 00h00

Seja qual for a verdadeira história do incidente com a camareira de hotel, em Nova York, já está feito um enorme estrago - e não só na carreira de Strauss-Kahn. Inocentado, ele dificilmente retornará à disputa pela presidência de seu país, exceto se emergir como vítima de um complô. Mesmo nesse caso, haverá perguntas sobre como se deixou envolver na armadilha. O escândalo altera o quadro da sucessão na França, tornando mais cômoda a posição do presidente Nicolas Sarkozy. Mas a política francesa, neste momento, é apenas um detalhe de um quadro muito mais complexo e preocupante.

Sob a liderança de Strauss-Kahn, o FMI fez muito mais pela Europa, nesta crise, do que participar do socorro à Grécia, à Irlanda e a Portugal. Em 2008, quando o estouro da bolha financeira jogou o mundo na recessão, o Fundo socorreu a Islândia e logo em seguida a Polônia, beneficiada com um crédito preventivo de US$ 20 bilhões. Na zona do euro os maiores desafios surgiriam mais tarde, na passagem de 2009 para 2010, quando se verificou a gravidade da situação fiscal da Grécia e de outros países da chamada periferia.

Os governos mais poderosos da união monetária tentaram, inicialmente, evitar o recurso ao FMI. Mas, quando mudaram de ideia, o Fundo assumiu um papel muito mais importante que o de mero contribuinte para um programa de ajuda.

Strauss-Kahn tornou-se uma figura-chave das negociações em cada operação de socorro. Em alguns momentos, sua participação foi essencial para a articulação dos programas de ajuda. Na semana passada ele estava empenhado em montar um novo pacote de ajuda à Grécia, novamente em dificuldades. Nesta semana, ele deveria ter-se encontrado com a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, e participado de reuniões para discussão desse e de outros problemas graves.

Strauss-Kahn foi também uma figura central nas discussões do Grupo dos 20, atuando tanto nos encontros ministeriais quanto nas conferências de cúpula, realizadas com regularidade a partir do fim de 2008. Assumiu oficialmente o papel de cumpridor da agenda do grupo, mas desempenhou de fato uma função muito mais importante, como líder de uma instituição geradora de estudos, de informações e de propostas tecnicamente elaboradas.

Ele deveria deixar em breve a direção do FMI para concorrer à presidência da França. O escândalo precipitou o problema da sucessão no Fundo. A substituição será especialmente complicada. Strauss-Kahn conduziu a instituição com eficiência numa crise mundial de gravidade incomum. Ao mesmo tempo, administrou uma redistribuição de cotas e votos cobrada com insistência por países emergentes. Além disso, iniciou a reforma administrativa do Fundo. Crescem, agora, as pressões pela mudança do critério tradicional - um americano para o Banco Mundial e um europeu para o FMI. Emergentes pretendem entrar no jogo, mas europeus tentam adiar a inovação. A crise na Europa, alegam, torna a mudança inoportuna. É um argumento discutível. Incontestável é a dificuldade para encontrar alguém com a competência técnica e a liderança de Strauss-Kahn. E, de preferência, sem as suas fraquezas mais notórias.

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