A crise e a extrema pobreza

O aumento da pobreza ocorreu em todo o País, mas foi mais acentuado precisamente no Nordeste

O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2018 | 03h00

Os meios políticos têm oposto forte resistência às tentativas de enfrentar seriamente as causas da crise econômica gerada nas administrações petistas. Essa oposição é especialmente sentida nas questões relativas ao ajuste fiscal. Apesar de todo o esforço empreendido, o governo de Michel Temer não conseguiu, por exemplo, que o Congresso aprovasse a reforma da Previdência. Mas enquanto as soluções são adiadas, os efeitos da crise fazem-se notar cada vez mais fortes. Recente estudo da consultoria Tendências, a partir de dados do IBGE, revela que, entre 2014 e 2017, a miséria cresceu em 25 das 27 unidades da Federação. As exceções são Tocantins e Paraíba.

O panorama nacional não deixa margens a dúvidas. A crise econômica tem ocasionado uma profunda crise social. Em 2014, 3,2% das famílias brasileiras viviam abaixo da linha da pobreza extrema. Em 2017, o porcentual foi de 4,8%.

A situação tem ainda uma agravante. O aumento da pobreza ocorreu em todo o País, mas foi mais acentuado precisamente na região mais carente, o Nordeste. Em alguns Estados, o crescimento da miséria nos últimos quatro anos foi estarrecedor. Bahia, Piauí e Sergipe, por exemplo, dobraram ou quase dobraram o porcentual de famílias que vivem na miséria.

É do Nordeste também o Estado que apresentou a pior situação de pobreza – o Maranhão. Em 2014, 8,7% das famílias encontravam-se em situação de extrema pobreza, com renda domiciliar per capita inferior a R$ 85. Em 2017, o índice foi de 12,2%.

Também foi especialmente marcante o crescimento da pobreza no Rio de Janeiro. Em 2014, 1,4% das famílias estava abaixo da linha da pobreza extrema. Em 2017, o índice chegou a 3,5%. Vale lembrar que esse período de quatro anos corresponde à realização de grandes eventos esportivos – a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. O caso fluminense é um exemplo eloquente dos nefastos efeitos sociais produzidos pela crise fiscal.

Ainda que em passo menos acelerado, São Paulo também apresentou crescimento da pobreza extrema: de 1,9% das famílias (2014) para 2,7% (2017). O Estado com melhor índice relativo à miséria foi Santa Catarina: apenas 1,8% das famílias tem renda domiciliar per capita abaixo de R$ 85. Em 2014, era 1,4%.

Os números mostram que o Brasil vivencia uma situação muito diferente da que ocorre em outros países. Um estudo desenvolvido pela The Brookings Institution – entidade americana especializada no estudo de políticas públicas – aponta uma gradual redução da pobreza no mundo, com a ocorrência de um dado inédito na história da humanidade. A estimativa é de que, no mês passado, a população de classe média e rica tenha ultrapassado o número de pessoas que estão em situação de pobreza.

De acordo com o estudo, as faixas de renda são: extrema pobreza (gastos diários por pessoa abaixo de US$ 1,9), pobreza (entre US$ 1,90 e US$ 11), classe média (entre US$ 11 e US$ 110) e rica (acima de US$ 110). Essa distinção das faixas de renda se baseia numa classificação proposta pela OCDE em 2010, cujo principal elemento diferenciador para o limiar entre pobreza e classe média é a resistência para enfrentar um revés econômico, produzido por uma doença ou um período de desemprego, por exemplo, sem que isso signifique retornar à pobreza.

Ainda que os parâmetros dos estudos sejam diferentes, bem como as perspectivas de tempo, fica claro que o Brasil está na contramão da história. Enquanto o mundo comemora o fato de a maioria da população mundial já não viver em situação de pobreza ou extrema pobreza, o País vê crescer sua população em situação de miséria. É mais que hora de adotar, com determinação e compromisso, as reformas capazes de reverter esse quadro econômico e social. Não se pode permitir que a população mais carente continue sofrendo as consequências de quem deseja preservar os privilégios e as benesses de um Estado gastador, indiferente ao equilíbrio fiscal.

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