A crise europeia e suas consequências no Brasil

A economia brasileira não estará imune à crise na União Europeia (UE). Sofreremos repercussões altamente negativas, a começar pela conta de transações correntes do balanço de pagamentos.

, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2010 | 00h00

Anteontem a Bolsa de Valores de São Paulo sofreu a maior sangria de recursos estrangeiros, com uma queda de 2,31% no seu índice, e até o dia 5 de maio já havia registrado déficit de R$ 892,491 milhões (US$ 483,483 milhões) que cresceu muito depois daquela data. No mês de março, segundo os dados do Banco Central, os investimentos em ações apresentaram saldo positivo de US$ 1,682 bilhão. Um saldo negativo, no caso de a situação atual se prolongar, fará falta nas contas externas, pois a conta de transações correntes, com déficit, necessita compensá-lo com entrada de capital externo.

É necessário ter presente que a taxa cambial pode afetar positivamente a balança comercial, fator essencial na formação do resultado das transações correntes. Nesses dias, os acontecimentos na Grécia contribuíram para uma nova desvalorização do real ? o dólar chegou a subir 3,17% em um só dia, anteontem ? que, no momento em que escrevíamos, parecia prosseguir. Isso nos ajuda a exportar mais e a comprar menos mercadorias no exterior, mas favorece uma alta de preços internos, em vista de uma economia industrial muito dependente de componentes importados. É de lamentar que o pacote de incentivos às exportações baixado pelo governo não tenha sido mais substancial.

Há outras possíveis consequências negativas da crise da UE. Com uma taxa cambial desvalorizada, os juros dos empréstimos externos ficam mais caros em reais, mas, no clima atual de desconfiança em relação a países cujas contas públicas estão se deteriorando ? o que é o caso do Brasil ?, vai haver maiores dificuldades para captar recursos e teremos de pagar juros maiores do que atualmente. Ora, dentro de nosso ambicioso programa de crescimento, a necessidade de recorrer à poupança externa ficou mais premente.

Até agora estivemos contando com um fluxo de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) para cobrir o déficit das transações correntes. Mas o que se constata é que, apesar de um fluxo razoável desses investimentos nos primeiros meses do ano, eles estão abaixo das previsões, o que se explica talvez pelo receio do investidor externo de arriscar aplicações em países cujo crescimento parece estar num ritmo que dificilmente poderá ser mantido sem a dose de poupança interna necessária.

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