A crise financeira - riscos e incertezas

No exercício de funções governamentais de responsabilidade, um tipo de conhecimento indispensável é aquele que se caracteriza pela aptidão para entender o conjunto das coisas. Esse tipo de conhecimento, associado à compreensão da relação entre meios disponíveis e fins desejáveis, é o que confere ao governante perícia estratégica para perceber o que está aberto às possibilidades futuras. Esse tipo de conhecimento tem a feição de uma "visão global". Como diz Fernando Henrique Cardoso, é uma espécie de "quadro mental", fruto da experiência, da sensibilidade e do domínio de assuntos, que permite a um governante, sem perder o sentido de direção, ir contextualizando a informação fragmentada que provém do mundo complexo e interdependente em que vivemos.Entender o conjunto das coisas que estão ocorrendo no mundo, com destaque para a crise econômico-financeira, que a partir dos EUA se espraiou globalmente, é uma dificuldade compartilhada em todos os lugares por governantes e governados.A crise teve como ponto de partida os desequilíbrios do sistema financeiro global. Este se esfacelou com as virtualidades de suas engenharias, seus derivativos, subprimes, suas securitizações e alavancagens, que foram ao chão como um castelo de cartas. Isso trouxe, em vários países, com destaque para os EUA, intervenções governamentais maciças e sem precedentes em matéria de escala, voltadas para conter o pânico financeiro. Essas intervenções até agora não conseguiram conter o impacto da crise financeira na economia real da produção e dos serviços. Daí os problemas do desemprego, da diminuição do crescimento e, em muitos casos, da recessão, que se avolumam em escala planetária.A crise vai muito além dos problemas mais técnicos da liquidez e da solvibilidade, que em princípio os bancos centrais e as intervenções governamentais podem encaminhar. É uma crise de confiança, que vem sendo alimentada por vários fatores, entre eles: 1) As fraudes financeiras que se tornaram do conhecimento geral; 2) a ampla circulação de instrumentos financeiros, como os acima mencionados, que na sua complexidade deixavam na penumbra o imenso potencial do perigo que carregavam; 3) as consequências da excessiva alavancagem, animada pela ganância de lucro, que redundaram em imensos prejuízos à medida que despencou o preço dos ativos; e 4) a percepção generalizada internacionalmente da falta de transparência dos produtos financeiros, das instituições de crédito e do funcionamento dos mercados financeiros globais, que passaram a ser considerados uma espécie de "caixa-preta", destituída de apropriados mecanismos de supervisão e de controle.Qual é o significado e o alcance desta crise, que aprofunda tensões difusas em todos os países, inclusive no Brasil? Os economistas fazem uma distinção entre risco e incerteza. O risco comporta cálculo, enseja alguma previsibilidade e abre horizontes para cenários de possibilidades que o imprevisto pode trazer. Os vários tipos de seguro, desde a sua origem, como o seguro marítimo, os hedges, são uma expressão de um cálculo probabilístico que permite a gestão de riscos. A incerteza, ao contrário, não comporta cálculo e por isso tende a propiciar o imobilismo, do qual são exemplos os bancos que não emprestam, os investimentos empresariais que se suspendem e o consumo dos particulares que se contém.O risco é uma característica da sociedade moderna e o capitalismo nela identifica um caminho de inovação e progresso. Nesta nossa era de globalização, Anthony Giddens chama a atenção para o novo risco do risco. Este provém de um maior desconhecimento do nível de risco, manufaturado pela ação humana. Disso são exemplos o risco ecológico, o nuclear e o da direção do conhecimento científico-tecnológico, que, com suas constantes inovações, transpõe continuamente barreiras antes tidas como naturais. A crise financeira, como crise de confiança, é uma expressão do risco manufaturado pelo sistema financeiro global, que por conta de suas falhas de avaliação, gestão temerária, carência de supervisão e de normas se transformou num não debelado curto-circuito de incerteza.A crise é global e os seus efeitos estão se internalizando na vida dos países, em maior ou menor grau, à luz das suas especificidades. Ela coloca um grande desafio nacional para o governo do presidente Lula. Com efeito, até o advento da crise, o governo Lula pôde contar com os ventos favoráveis da economia mundial e com a herança positiva recebida do governo Fernando Henrique, de uma gestão econômica bem-sucedida no controle da inflação, que saneou o sistema financeiro nacional e introduziu qualidade no processo decisório macroeconômico. Pôde valer-se, também, da rede de proteção social criada pelo governo anterior, ampliando-a de maneira importante, com base inclusive nos recursos gerados pelo crescimento econômico. As qualidades de comunicação do presidente Lula, a carga simbólica de sua biografia e a sua capacidade, com base no seu "quadro mental", de ir tocando as coisas são componentes explicativos da sua popularidade e do seu sucesso.Em política sempre há o inesperado. Hannah Arendt gostava de citar uma frase de Proudhon: "A fecundidade do inesperado supera em muito a prudência do melhor estadista", aduzindo que, com maior razão, o inesperado escapa ao cálculo dos peritos. A crise é o inesperado da vulnerabilidade para um governo que vinha navegando com relativa tranquilidade. Gestão de riscos e incertezas é uma responsabilidade governamental. Observo, com isso, que a crise coloca para o governo Lula e seus colaboradores um novo desafio. O de encontrar meios e modos para, em contraste com os seis últimos anos, navegar num mundo que para nós, hoje, caracteriza-se - para falar com Camões - por ser "tempo de tormenta e vento esquivo". Celso Lafer, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras, foi ministro das Relações Exteriores no governo FHC

Celso Lafer, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

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