A crise iraniana se acirra

Não tendo mais em Brasília o bom amigo Lula para exibir ao mundo como prova de prestígio internacional, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tomou o rumo que lhe resta na América Latina, visitando nesses dias a Venezuela de Hugo Chávez, a Nicarágua de Daniel Ortega, o Equador de Rafael Correa e Cuba dos irmãos Castro. Por alguma razão desconhecida, a Bolívia de Evo Morales desta vez ficou fora do roteiro. De qualquer modo, o passeio do dirigente iraniano pelos redutos do antiamericanismo na região é de uma estrondosa irrelevância em face do novo acirramento das tensões entre a República Islâmica e o Ocidente, provocado pelo programa nuclear de Teerã e a crescente radiação política que propaga.

O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2012 | 03h07

O relatório de novembro último da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o mais detalhado em uma década de investigações malquistas pelo regime dos aiatolás, concluiu que pelo menos algumas das suas atividades no setor só se explicam pelo "desenvolvimento de um artefato nuclear". A partir de então - e dada a relativa inocuidade dos quatro pacotes de sanções impostos ao Irã ao longo dos anos pelo Conselho de Segurança da ONU, por transgressões ao Tratado de Não Proliferação de que o país é signatário - os Estados Unidos e seus aliados europeus puseram na mesa a alternativa de retaliação que vinham hesitando em adotar por suas óbvias repercussões para uma economia global já em crise: o boicote (gradual) às compras de petróleo iraniano, que respondem por 60% da receita nacional.

A iminência do embargo pode ser avaliada pela decisão de ontem dos chanceleres da União Europeia de antecipar em uma semana o encontro conclusivo sobre a questão, antes previsto para o próximo dia 30, quando os líderes do bloco se reunirão em conferência de cúpula. De ambos os lados do Atlântico, a preocupação dominante parece ser a calibragem do castigo, para evitar um surto de alta nas cotações de petróleo - e não mais a punição propriamente dita. Diante disso, o Irã responde com palavras e fatos. Primeiro ameaçou bloquear a navegação no Estreito de Ormuz, por onde trafega cerca de 35% do óleo mundial. Em seguida, no último domingo, informou que começou enriquecer urânio à taxa de 20% nas instalações de Fordo, um bunker aparentemente invulnerável, 90 metros adentro das montanhas ao redor da cidade sagrada de Qom.

A se consumar, a ameaça de fechamento do estreito - acompanhada, aliás, por novos testes de mísseis de longo alcance - será considerada pelos Estados Unidos "um ato de guerra", a ser tratado como tal. Mas a reação americana à notícia do enriquecimento de urânio foi pouco mais do que protocolar. A construção do centro foi revelada pelos serviços ocidentais de inteligência em 2009. Agora, Teerã diz que as atividades ali iniciadas estão sob supervisão da AIEA e se destinam a pesquisas na área médica. O fato é que purificar urânio a 20% é tido pelos especialistas como etapa para chegar à bomba, para o que o índice deve ser superior a 95%. (A geração de energia elétrica em reatores nucleares requer apenas 3,5%.)

O alarde do anúncio foi também um desafio. O desafiante não foi Ahmadinejad, então a caminho de Caracas, mas o chefe da teocracia iraniana e seu rival, o aiatolá Ali Khamenei. É ele quem controla a Guarda Revolucionária, a elite repressiva do regime e a sua maior força econômica: tem sob as suas barbas a indústria petrolífera - e o programa nuclear. Khamenei e os seus fiéis são muito mais propensos a um confronto com o Ocidente do que Ahmadinejad, a quem se atribui a intenção de manter entreabertas as portas para o diálogo.

Khamenei impulsiona a militarização do país e diz que as eleições parlamentares de março próximo poderão ameaçar a segurança nacional, numa presumível alusão ao choque entre alas antagônicas do regime - a oposição está sufocada desde a fraudada reeleição de Ahmadinejad em 2009. As festas que agora lhe fazem os bolivarianos parecem pouco perto do que precisa em seu país.

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